Califórnia (Armitage #3)


A chuva caía com insistência no telhado da casa enquanto todos os presentes observavam. Era um saco ter de ficar esperando a vontade do além para que a chuva parasse e o dia ficasse como todos esperavam naquela manhã. O sol tinha mostrado sua cara radiante entre poucas nuvens, mas, perto do meio-dia, elas se multiplicaram e esconderam a luminosidade habitual de uma manhã de verão. Os pingos começaram a cair pouco depois. Nesse meio tempo, diversas pessoas estacionaram seus carros e bicicletas na entrada daquela propriedade, uma casa de veraneio bem arejada na beira de uma praia deserta. Era ali que um conhecido casal iria celebrar suas bodas de alguma pedra ou material precioso.
Mike não conhecia o casal. Estava na companhia de Jordan e alguns amigos da costa de Laguna, a quem conhecia pouco. Passavam as férias em Laguna Beach desde que Mike e Jordan se conheceram, há três anos, mas aquela era a única época do ano em que conviviam com aquelas pessoas. Por sorte, o destino fizera com que Don, um antigo amigo de faculdade de Mike, tivesse construído sua vida na costa da Califórnia e, por conta de outra peça dessa vida estranha, conhecesse a maioria dos jovens pertencentes àquela sociedade. Era esse simples e delicioso fato que tranquilizava Mike diante da ideia de ficar tempo demais abobalhado no meio de gente desconhecida. Agora ele segurava uma taça de alguma bebida super ruim que Jordan lhe dera, enquanto observava a chuva junto aos outros.
Uma música começou a tocar ao fundo quando Don retornou ao deque. O deque era coberto e repleto de sofás e almofadas, o que possibilitou que a festa continuasse apesar da chuva. Don percebeu o que Mike bebia e, com uma expressão não muito agradável, roubou-lhe a taça e jogou seu conteúdo na areia da praia, mais à frente. Derramou um pouco do líquido de sua própria taça na de Mike e devolveu-a ao amigo.
“Ninguém deveria lhe dar esse álcool de posto. Fique com meu Chardonnay.”
Mike pegou e tomou um gole. Bem melhor. A sensação agradável o fez perceber que a música que saía de dentro da casa era cantada ao vivo. Lançou um olhar para o interior da propriedade e viu uma moça de longos cabelos escuros entoar versos de uma canção conhecida nas rádios, apesar dele não ter reconhecido. Jordan estava lá dentro com os amigos, observando a mulher cantar. Parecia conhecer a música, pois movia os lábios acompanhando a melodia. Um homem muito bonito começou a fazer dueto com a mulher e, juntos, terminaram a melodia de forma grandiosa. Todos aplaudiram enquanto os dois cantores se abraçavam.
“Quem são eles?”, quis saber Mike enquanto bebia mais um gole.
“Keith alguma coisa e Lana alguma coisa. Acho que o sobrenome de um deles é Armitage, mas não sei qual. São cantores que uns amigos de Bruce estão lançando no mercado musical, dizem que vão arrasar nas paradas mundiais. Eu duvido. Ela tem cara de botox e ele já está envolvido em um escândalo homossexual. Que família vai querer ouvir músicas escritas de homem para homem? Só nós gostamos disso.”
“Freddie Mercury. Elton John. Ricky Martin”, citou Mike.
“Esses são grandes nomes da música. Isso é diferente. E Ricky Martin, jura?” A expressão de desprezo no rosto de Don logo deu lugar a uma sonora risada. “Tudo bem, eu confesso que já me peguei cantarolando Livin' La Vida Loca em momentos de descontração. Veja, lá vem seu querido namorado.
Jordan saiu para o deque na companhia de dois outros caras, Bruce e Luca. O primeiro era o famoso produtor musical a quem Don se referiu quando falava dos cantores. Levava uma vida comum, pelo que Jordan dizia, apesar de sempre estar rodeado de pessoas famosas. Luca era uma delas, um conhecido ator hollywoodiano que estrelava um dos filmes mais rentáveis da atualidade. Era estranho estar ao lado de tantas celebridades e não se sentir impressionado com isso. Na verdade, só queria aproveitar a festa ao lado de quem conhecia. Jordan estava vestindo sua bermuda florida e vinha com a camisa aberta, deixando à mostra parte de seu corpo. Parecia fazer de propósito, pois sabia que a maioria das pessoas na festa o reconhecia e queria ver exatamente aquilo. Jordan era modelo, também famoso.
Parecia que Mike e Don eram os únicos ali que não eram celebridades. Seu amigo até que era conhecido, mas somente entre os jovens ricos da costa californiana. O mundo nem sabia quem era Don, mas quem o conhecia o adorava. Era dono de um corpo invejável e, se quisesse, poderia modelar como Jordan. Mas Don é somente um fotógrafo de celebridades, aquele que fica por trás da fama. Mike gostava disso. Achava que o amigo era sortudo por estar entre aquele pessoal e não se deixar levar pela fama que carregavam, mas Mike evitava pensar nisso porque ainda viria o dia em que ele mesmo seria conhecido do público apenas por namorar Jordan. Nesses três anos em que passaram juntos, a relação permaneceu encoberta. Pensando nisso, Mike até simpatizou com Keith alguma coisa, mas não queria estar em sua pele.
“Muito boa a apresentação, não?”, perguntou Jordan aos demais. “Acho que, dessa vez, a equipe de Bruce acertou em cheio. Keith Armitage já é um nome bem comentado, vindo de West Hollywood, então...”
Todos concordaram, mas Mike apenas assentiu. Não conhecia o cantor, mas, pelo talento que ele havia demonstrado ao lado da mulher, realmente não havia do que reclamar. Bruce continuou:
“Foi um agente da Capsound que encontrou Keith tocando em uma casa de shows por lá. Vocês devem conhecer o proprietário das revistas, por causa dos boatos que surgiram... A imprensa não perde tempo mesmo! É o tal do Conrad Clay. Já trabalhamos juntos uma vez.
“Fui a um evento em que ele estava”, comentou Luca, bebericando um pouco de seu vinho. “Tiramos uma foto para alguma revista, mas nem tive chance de conversar com ele, apenas com Keith. O sujeito não parece ser dos melhores. Eles estavam envolvidos, não? Keith e esse Conrad. Ainda bem que não deu certo. Agora posso tentar a sorte com o músico!”
O pequeno grupo riu e soltou algumas exclamações. Don apenas observava, assim como Mike, que também sorria. O deque estava ficando cheio de pessoas que saíam da casa para observar o tempo e a praia molhada. Alguns saíam também para tietar os cantores que agora jogavam conversa fora em um dos sofás mais afastados. O interior da casa tinha ficado quase vazio, assim como a taça de Mike. Don, sem perder tempo, roubou-lhe a taça e tomou o último gole da sua.
“Se vocês me derem licença, vou tirar mais bebidas do congelador. Jordan, eu posso roubar Mike por um segundo?” Don nem esperou resposta, pegou Mike pela mão e o puxou para dentro da casa. Meia dúzia de pessoas ainda se encontrava lá. Alguns casais trocando olhares e carícias ou conversando perto da lareira apagada. Don foi até o rádio e ligou uma música ambiente, cuja falta aparentemente ninguém mais havia notado. Mesmo que não fosse o anfitrião da festa, trabalhava para que ninguém se sentisse mal. Foi pensando nisso que, ao chegar à cozinha, suspirou de alívio. “Aquela conversa foi um horror. Luca falando que quer traçar o cantor como se o coitado fosse um peixe ou sei lá.”
Mike observou enquanto ele tirava mais garrafas de um congelador sofisticado, aparentemente sem se importar com o frio que saía de lá. A regata que Don usava deixava à mostra parte de seus músculos. Mike fingiu não prestar atenção, pois Don alternava sua visão entre o rosto do amigo e o fundo do congelador, e a qualquer momento poderia notar.
“Mas o Keith é realmente muito bonito”, concordou Mike.
“Com certeza, mas nem por isso precisa ser tratado como um pedaço de carne. Mas também, Luca nunca foi muito polido com as palavras e nem muito inteligente. Dá pra contar nos dedos o número de neurônios que ele tem.”
“Você fala como se fosse muito polido ao se referir aos outros, Don.”
Ele sacaneou o amigo com um empurrãozinho na direção do congelador. Por pouco, Don não se desequilibrou e caiu dentro do gelo. Ainda assim, lançou um olhar malicioso ao amigo e soltou um risinho.
“Mas é verdade. Luca é de quem eu menos gosto dentre os amigos de Jordan. Bruce ainda é tolerável porque é ótimo para conversar sobre outras coisas que não estejam relacionadas somente ao ofício. Já Luca só sabe falar mal do povo de Hollywood. Ainda bem que você me tirou de lá.”
“Veja só quem tá aprendendo comigo!”
Don fechou o congelador e colocou as quatro garrafas de vinho sobre a bancada da cozinha, sem dar sinais de que pretendia voltar ao convívio dos demais. De súbito, sua expressão risonha se desfez, e ele permaneceu com o olhar fixo nas garrafas, como se estivesse perdido em pensamentos sobre a temperatura da bebida.
Antes que Mike pudesse dizer qualquer coisa, Don perguntou:
“Como você e Jordan estão? Digo, o relacionamento.”
A pergunta pegou Mike desprevenido. Aquela semana não tinha sido das melhores para eles. Tinham brigado uma vez, logo que chegaram a Laguna, por coisinhas simples, bobeiras, por causa do ciúme doentio que Jordan sentia. Mike tinha vindo à festa a fim de deixar Jordan em um ambiente familiar, cercado de pessoas de quem gostava, para tentar pôr um pano quente na ferida e aproveitar para se distrair também. Agora, Don trazia o assunto de volta à sua consciência, sem se dar conta do que fazia. Mike desviou o olhar e apoiou os dois cotovelos na bancada de pedra, tentando parecer despreocupado.
“As coisas não vão bem”, começou. “Jordan é muito ciumento e eu não gosto disso. Ele precisa mudar muitas coisas na conduta dele, mas não posso ficar cobrando isso dele se nem eu mesmo consigo mudar a minha.”
“Entendo”, respondeu Don e se calou.
“Por que pergunta?”, quis saber Mike.
Era estranho ouvir aquilo de Don, que nunca se interessava muito pelos relacionamentos alheios. Eram amigos desde a faculdade; talvez isso justificasse a pergunta.
“Eu senti vocês meio distantes. Por isso perguntei. É estranho, porque, desde que te conheço, raramente vi você se dedicar tanto a um relacionamento. Calma, não quis ofender. É que Jordan parece tão... bruto pra você, sei lá. Se me lembro bem, Jamie combinava muito mais com você, e vocês ficaram juntos por menos de dois anos.”
“Jamie era muito bom, realmente. Mas, nesse caso, foi ele que colocou a relação em segundo plano para priorizar a profissão. Fotógrafos! Sem querer te ofender, Don, mas a sua raça é difícil de lidar às vezes, nessa sociedade em que a gente vive. São muitos trabalhos e viagens, muitos modelos bonitos, músicos, atores e tudo mais. Jamie preferiu isso a mim.”
“Que bobeira. Eu não sou assim e nunca fui. Posso até ter causado por aí, mas nunca vivi pulando de galho em galho. Se estou com alguém, faço por merecer essa pessoa, e vice-versa. Jordan é bonito e tal, mas acho que você merece muito mais. Sério, Mike. Não quero ser inconveniente, mas olha pra você, se segurando a um cara que nem te dá toda a atenção que você merece e ainda vive pulando a cerca.”
No momento em que terminou a última frase, Don pareceu se arrepender do que dissera. Apertou os lábios e levou a mão à barriga, como se sentisse alguma coisa. Tentou disfarçar e abriu o congelador para pegar mais bebidas, mas não era necessário: as quatro garrafas já seriam suficientes para todos. Mike só percebeu que estava boquiaberto quando mexeu os lábios para formular uma pergunta.
“Você sabe de alguma coisa que eu não sei, Don? Pode me contar.”
Don fechou a tampa do congelador sem pegar mais nada e voltou o olhar para Mike, ainda com aquela expressão de arrependimento pintada em seu belo rosto.
“Mike, eu não sei de nada, mas as pessoas comentam. Não quero te magoar... Os amigos de Bruce dizem que, em São Francisco, a vida de Jordan é corrida. Você mesmo sabe bem disso. Mas, convenhamos, é a Califórnia, Mike. Você tem razão quando diz que essa vida é complicada. Talvez seja mesmo. Pense bem no que você está fazendo com a sua. Você é bom demais pra merecer esse tipo de coisa. Só digo isso porque te amo como um irmão, e você sabe muito bem disso também.”
“Obrigado, Don. Você só poderia ter me contado antes.”
“Como eu disse, Mike, não sei e não vi nada. As pessoas comentam, e eu prefiro não acreditar nelas. Agora vamos pra fora, que eu quero tomar essa beleza aqui pra afogar as minhas próprias mágoas. E sugiro que você faça o mesmo, comigo. Vamos.”
Cada um pegou duas garrafas de espumante branco, e ambos saíram para o deque, que ainda estava cheio de gente. Os cantores tiravam fotos e autografavam capas de seus álbuns em um espaço reservado à imprensa. Don não estava trabalhando naquele dia, mas tinha um assistente tirando fotos por ele.
Mike notou que Jordan e os amigos conversavam com Lana alguma coisa e Keith Armitage enquanto posavam para outra foto. Luca lançava olhares para o cantor e tocava seu antebraço sempre que alguém fazia uma piada. Era ridículo pensar que ele cobiçava o cara como uma criança olhando um doce pela vitrine. Jordan também ria e abraçava outros caras como se os conhecesse desde o início dos tempos. Mike nunca tinha percebido que esse tipo de comportamento pudesse levantar suspeitas, até porque Jordan era tão possessivo que a possibilidade de ele próprio ser traído nunca lhe havia passado pela cabeça.
Ah, a Califórnia. Um pequeno antro de perdições. Aquele era mesmo um mundo selvagem e, talvez, Mike fosse um dos animais mais burros. Mas nisso ele pensaria depois.
Milagrosamente, o sol despontou em meio a nuvens esparsas e fez a felicidade da maioria dos presentes no deque. Quem estava de roupa de banho aproveitou para pisar na areia molhada e sentir as ondas nos pés. Jordan seguiu com os outros amigos seminus para dentro da água salgada, sem ao menos perguntar se Mike queria acompanhá-lo.
Contudo, Mike preferia ficar por ali mesmo, no deque, tomando seu Chardonnay e conversando com Don, Keith Armitage e Lana alguma coisa, os famosos que, por mais incrível que pudesse parecer, aparentavam ser pessoas melhores do que aquelas que agora jogavam areia umas nas outras.
Era verão, e Mike tentava aproveitá-lo da melhor forma possível, ainda que isso envolvesse uma separação. E envolveria. Mas nisso ele também pensaria depois.


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