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Harvey Hill

  • Foto do escritor: jeffpavanin
    jeffpavanin
  • 30 de dez. de 2025
  • 16 min de leitura

Palavras-chave: vampiros, luxúria, LGBT.

A escadaria da mansão convidava os que chegavam a entrar no recinto mais luxuoso da cidade. A fachada estava adornada com estandartes prateados que titulavam o evento da noite. No salão da nobreza, muitos dos convidados, vagarosos, conversavam e circulavam entre as personalidades mais influentes da cidade e também do país. As mulheres usavam seus mais belos vestidos, sobrepostos por xales e echarpes que as protegiam do frio noturno, enquanto os homens se aproveitavam da situação para iniciar assuntos indelicados, metidos em ternos caros e, diziam, fabricados a partir dos fios mais raros. Não havia quem ousasse discordar da magia fabulosa daquela noite, que reunia, como num feitiço, toda a beleza do mundo dentro de um só lugar.

Havia também os desacreditados. Jovens marotos que tinham sido convidados somente por serem filhos dos senhores da alta sociedade, cuja nata se encontrava reunida ali. Os anfitriões eram exigentes, haviam convidado somente os maiores investidores, os donos do capital. Nenhum microempresário poderia entrar na mansão naquela ocasião, pois a maior venda de todas estava para ser acordada com compradores do exterior. Assim, os menores não teriam capacidades monetárias nem para arcar com negociações paralelas.

Os jovens rebentos, patrícios de seus próprios impérios, se encontravam acumulados em um canto do salão nobre. Conversavam sobre barbaridades, televisão, moda e música contemporânea, já que os negócios de seus genitores nada lhes interessavam. No centro da roda, um deles, alto e loiro, metido em seu terno de linho egípcio, comentava:

– Souberam o que aconteceu com Julius?

A maioria olhou com indiferença, como se realmente não soubessem.

– Foi morto na noite passada – continuou ele. – O encontraram na rua às três da manhã.

– Que horror! – exclamou uma jovem.

– A violência só aumenta nesse país, meu caro Audrey. – concluiu um garoto ruivo. – Estamos desprotegidos em nosso próprio bairro. As ruas já não são mais as mesmas.

– Dizem que os piores crimes são cometidos dentro de casa – disse outro garoto, um moreno de olhos verdes. – Não acham estranho o fato de o corpo Julius ter sido encontrado em frente à porta de sua casa, aqui em Harvey Hill?

– O que está supondo, Marcus? – perguntou Audrey, o loiro. – Que Julius foi assassinado por alguém de sua própria família?

– Não estou supondo nada. Só comentei. 

Um senhor baixo, de bigodes, se aproximou do círculo de jovens, esbaforido e suando um pouco. Não se preocupou em saber se interrompia alguma coisa, somente chegou lançando:

– Alguém viu o meu filho?

Era possível observar facilmente o olhar de julgamento estampado em cada rosto.

– Quem é seu filho, senhor...?

– Spencer. Henry Spencer é meu filho. Alguém o viu?

Os jovens negaram.

Henry Spencer estava do lado de fora da mansão, saindo do interior de uma limusine preta. Sem dúvida era dono do blazer mais caro da noite e, por estar acompanhado por Thereza, a senhora sua mãe, certamente seria reconhecido por todos os senhores como filho do poderoso marajá do Sul, onde estava construído o império que herdaria. Era óbvio que os filhos de tais senhores não conheciam Henry, pois este nunca tinha frequentado festa alguma da sociedade de Harvey Hill. Não estava habituado a vaguear com a horda daquele bairro. Não era velho, mas desconhecia os termos utilizados pela juventude e não se interessava pelos assuntos que discutiam. Estava ali para acompanhar a mãe, somente, que sofria de uma doença rara e se encontrava um pouco debilitada, mas que era obrigada a marcar presença no evento. Para um investidor da alçada de seu pai, era importante que a família nuclear estivesse presente em momentos oportunos como aquele.

Ofereceu o braço à sua mãe, que aceitou e subiu com Henry os degraus da grande escadaria. A recepcionista conferiu os nomes dos convidados na lista que levava à mão e os deixou entrar, dando-lhes dicas inúteis de quais petiscos deveriam experimentar. Henry reparou que reconhecia alguns convidados, pois já haviam frequentado os eventos que seu pai organizava em sua casa de verão, mas não se lembrava dos nomes de nenhum. Conforme passavam, a mãe de Henry cumprimentava-os com um aceno discreto. Um deles se aproximou e iniciou um assunto. Era um velho conhecido da família, cujos filhos brincaram com Henry durante um período de sua infância, mas não lhe interessava a conversa. Afastou-se, se preocupando em tomar conhecimento de onde seu pai estava, para então manter-se longe dele. Não se davam muito bem e, para completar a situação, haviam discutido no dia anterior, pois Henry não queria comparecer ao evento e acabou sendo coagido pela mãe.

Na tentativa de fugir do ambiente hostil no qual se encontrava, ele se aproximou da parede mais afastada do centro do salão, encontrando conforto nas tapeçarias que as adornavam, sem se importar com o seu valor. Percebeu que a juventude se concentrava naquele extremo do salão, se diferenciando da grande porção senil que cobria a maior parte da festa. Muitos conversavam animados, segurando seus coquetéis coloridos dispostos em taças de cristal como se fossem seus mais preciosos tesouros. Alguns tinham uma frívola alegria estampada em seus rostos, enquanto outros pareciam aflitos. Henry pensou em como seria sua vida se seu pai tivesse seguido com a idéia de se mudar para Harvey Hill há cinco anos. Talvez hoje estivesse incluído em algum desses grupos, compartilhando de assuntos infecundos com a prole dos amigos de seu pai.

Com toda certeza, estar ali não fazia parte de seus planos para aquela noite. Porém, como nunca desperdiçava oportunidades, começou a pensar em uma maneira de se aproveitar da situação de alguma forma. Divertir-se não iria, mas poderia encontrar algo que o fizesse esquecer do tempo. Foi quando um dos jovens aflitos, um loiro, se aproximou de Henry com duas taças na mão e, oferecendo a ele uma delas, lançou:

– Por que ficar aí parado sozinho enquanto podemos apreciar um pinot noir?

Henry aceitou a taça com certa hesitação. Forçou um sorriso vazio de emoção, sem saber o que dizer ao homem que chegava metido em seu terno creme. Desencostou da tapeçaria, compondo uma postura apresentável àquele que certamente seria filho de um ricaço.

– Ora, você deve ser novo por aqui. Nunca o vi nos eventos de Harvey Hill – continuou.

– Vejo que você deve frequentar a todos eles – comentou Henry, ainda sorrindo.

– Bem, somente àqueles onde posso saborear um Clos de Vougeot – disse ele, levantando a taça levemente. – Sou Audrey Françoise, filho de Andre Françoise, da Dominique. Você é...?

– Henry – respondeu simplesmente. Mesmo agora, sabendo os nomes, não fazia idéia de quem era aquele homem e nem mesmo quem era seu pai. Ao mencionar seu próprio nome, percebeu que a expressão do outro, Audrey, se iluminou de forma curiosa.

– Seria Henry Spencer?

– Sim, esse sou eu. – disse franzindo o cenho, sem saber como o outro o reconheceu.

– Desculpe, é que o senhor seu pai passou por nós a sua procura.

Um espasmo gelado atravessou a espinha de Henry, que disfarçou seu abalo momentâneo levando a taça aos lábios para sorver um gole do até então intocado líquido amargo. Piscou duas vezes em reação ao gosto ruim do vinho que não apreciava e forçou outro sorriso.

– Meu pai me procurou? – disse, tentando transparecer normalidade.

– Sim, como eu disse. E ele me pareceu um tanto assustado. Aconteceu alguma coisa?

Henry se surpreendeu com o súbito interesse do desconhecido em sua vida.

– Você não tem mais nada pra fazer aqui? – perguntou, irritado. O outro pareceu ignorar sua diretiva, o pegou pelo braço e o conduziu para o grupo de jovens ali perto – Que isso...

– Filhos de Harvey Hill, dêem boas vindas a Henry Spencer.

Os outros o olharam com algum interesse. Foi possível perceber a compreensão estampada em suas faces quando Audrey disse seu nome. Seu pai deveria ter passado por eles realmente e não fazia muito tempo. Um moreno de olhos verdes, bonito e enfiado em um terno escuro, foi o único que se demorou no olhar. Henry retribuiu o olhar e sorriu, se desvencilhando com força da mão de Audrey, que o apertava. Desconcertado, achou que seria melhor se apresentar da maneira que convinha à situação.

– Sou Henry Spencer, filho de Roman Spencer, da Trópico, como certamente já sabem.

Um murmúrio geral de “Prazer, Henry” preencheu o pequeno círculo de pessoas que se fechou com sua presença. Um a um eles foram se apresentando: Marcus, o moreno de olhos verdes, Sofia, que escapava de dentro do vestido, Jovi, um ruivo estranho com sardas evidentes e, por fim, Melissa, uma loira insignificante. Todos seguravam suas taças e conversavam, aparentando se conhecer bem. Ouvindo o pouco da conversa, Henry pôde perceber que eram amigos de longa data e que estavam sempre presentes nos eventos da sociedade. Marcus, o moreno, puxou assunto com Henry, fazendo questão de comentar como era ótima a experiência de conhecer pessoas de fora do círculo fechado que compunham. Em questão de segundos, Henry e Marcus já tinham estabelecido um diálogo alheio ao grupo.

– Nunca te vi por aqui. É seu primeiro evento em Harvey Hill? – perguntou Marcus. O verde de seus olhos não se desviava do azul dos de Henry enquanto falava.

– Sim. Vim acompanhar minha mãe – respondeu ele, com um sorriso. Marcus também sorriu, e por um momento as palavras se findaram, sobrando apenas o brilho dos olhos que se encontravam.

O silêncio foi quebrado por Audrey, que gritou em direção ao grupo apontando para algum lugar atrás de si.

– E chegou Harvey Hill em pessoa... Ou pessoas.

Ele se referia aos dois anfitriões do evento, que desciam as escadarias vestidos em ternos gêmeos idênticos, tal como também o eram. Através da explicação de Marcus, Henry tomou conhecimento de que aqueles irmãos eram os donos da mansão onde se encontravam e também do próprio bairro ao qual ofereciam o sobrenome. O legado era encabeçado por Antoine Harvey, que junto de seu gêmeo Andrei, governava o império Harvey diretamente das alturas. Eram morenos, não aparentavam ter mais de 35 anos, e a barba por fazer oferecia uma elegância vagabunda aos seus rostos moldados ao formato de deuses gregos. Quando chegaram mais perto do público – pois assim deveria ser chamado o povo diminuto frente ao poder que os gêmeos emanavam – Henry percebeu que o brilho dos olhos de ambos era divinamente diferente do habitual. Lá de cima até pareciam dois deuses, ou demônios, que atraíam até mesmo o olhar da menor formiga do recinto. Acenaram ao público com discrição, dando atenção a cada um dos senhores a quem cumprimentavam.

Passado o brilho etéreo proporcionado pela descida dos anfitriões, todos os convidados do evento retomaram seus assuntos com os indivíduos com os quais antes eles dialogavam, tal como fez Audrey.

– Antoine e Andrei Harvey – disse com paixão no olhar –, os italianinhos herdeiros da fortuna de Harvey Hill. Não é hilário? Todos nós aqui somos filhos de senhores tal como eles foram um dia e, juntas, nossas fortunas não somam metade da que eles dispõem com essa idade. Quem é o mais velho entre nós? Marcus? Tenho 29 anos e sou pobre perto deles.

A maioria balançava a cabeça em sinal de concordância. Henry não suportava aquela conversa sobre dinheiro. Certamente também era herdeiro do legado de seu pai, mas não queria saber nem de 10% daquela fortuna. Esperou calado até que a conversa tomasse outro rumo enquanto alimentava os olhares que Marcus lhe lançava. A música ambiente sufocava-o e os perfumes misturados dava-lhe náuseas. A voz de Audrey ia se elevando a cada palavra pronunciada e sua insensatez ultrapassava os limites estabelecidos pelo ego de Henry, que já não o aguentava. Ele pensou que a conversa tomaria um rumo mais suportável, mas enganou-se quando o ruivo Jovi retomou um assunto que aparentemente discutiam antes de sua chegada.

– Como estava o estado do corpo de Julius?

– Deplorável – respondeu Audrey, que parecia saber sobre todos os assuntos da noite – Disseram-me que estava murcho e que seus olhos permaneciam abertos, com medo. 

Enquanto falava, Sofia retorcia sua face em uma expressão de nojo e repulsa. Henry, apesar de nauseado, se interessou pela vítima:

– Ele era amigo de vocês? – perguntou para o grupo.

– Você o conhecia, Henry? – lançou Audrey após sorver o último gole de seu vinho.

Ele retesou.

– Não, não. Vi alguma coisa na televisão.

– Foi um crime horrível mesmo – disse Marcus. – E dizem que não foi o primeiro.

– É o terceiro de uma série de assassinatos. Porém, dessa vez foi com um dos nossos... Eu não conhecia os outros dois.

A náusea de Henry se agravou. Estava irritado com a festa, com aquelas pessoas, com a conversa. Começou a suar frio debaixo da camisa e, olhando para Marcus, para seus traços convidativos, tocou seu braço delicadamente e pediu para que se afastassem do grupo. Sem dizer uma palavra, Henry saiu pelo átrio com Marcus aos calcanhares, sem saber onde estava sua mãe e também não se preocupando com seu pai. Com a visão embaçada, dirigiu-se a um corredor ao fundo, que parecia dar nos quartos de hóspedes. Suando, Henry virou o corredor, preocupado em se esconder da alegoria que havia se tornado aquela festa para ele. Apoiou na parede e usou o indicador para alargar a gravata que ajudava a piorar seu sufoco. Percebendo o abalo, Marcus tocou seu antebraço com carinho.

– Aconteceu alguma coisa? – perguntou ele, preocupado.

Henry fechou os olhos e respirou fundo, tentando recuperar a visão que havia perdido. Ao abri-los se deparou com os de Marcus, encarando-o. Aqueles traços morenos o convidavam ao erro e o brilho de seus olhos verdes quase o chamava pelo nome.

– Henry... Henry...

Eles chamavam. Encarou a face corada do outro, que pulsava vida e estava ali, só para ele. O burburinho da festa sumiu, a presença das outras pessoas tornou-se nula e naquele momento Henry só tinha olhos para a essência de Marcus.

– Henry? Está tudo bem? O que aconteceu? – repetiu.

Ele se preocupa! Meu Deus, como ele se preocupa. Henry pensava. Um garoto qualquer da sociedade, que havia conhecido a menos de meia hora, estava preocupado com o que poderia estar se passando com ele. Uma alma inocente, um menino doce. Abriu a boca para responder ao outro, mas seu instinto foi mais forte e o empurrou em sua direção. Seus lábios se encontraram com força e desejo e, assim, dançaram. Henry encontrou plenitude nos lábios dados que saboreava sem hesitação. Seus dedos sentiam a textura dos cachos negros de Marcus, pressionando o crânio do outro junto ao seu em um gesto de desesperada sede. O outro retribuía o beijo com vontade, tateando locais estratégicos do corpo de Henry sem se preocupar com a presença de outras pessoas. Henry se aproveitou de tudo o que pôde de Marcus, antes que este cedesse ao fim da vida e permanecesse inerte em seus braços.

Não demorou a acontecer. Henry agora envolvia o corpo de Marcus sem vida. Deitou o cadáver no carpete vermelho e o deixou ali, fugindo para a profundeza dos aposentos da mansão. Entrou em um quarto qualquer e fechou a porta atrás de si. Na penumbra, sentiu-se em plenitude e mais forte fisicamente. Sabia que havia melhorado, mas precisava tocar-se e ver com os próprios olhos. Tirou a gravata e o terno e desabotoou a camisa. Despiu-se deixando o tronco nu e foi até o centro iluminado do quarto para enxergar melhor. Tirando com cuidado o curativo improvisado, notou que o grande corte que atravessava toda a base de seu abdômen estava quase cicatrizado. Satisfeito, tateou seus músculos a procura do desenvolvimento prometido e o encontrou. Henry respirou profundamente três vezes, como havia sido instruído a fazer, e um véu de calma o envolveu.

Sobressaltou-se ao ouvir o clique da porta atrás de si e se virou de súbito para ver quem entrava. No escuro avistou o brilho prateado dos olhos de Antoine e a tensão se desfez. Andrei entrou logo atrás, calado, seguindo os passos do irmão segundos mais velho. Fecharam a porta novamente e, com um gesto de Antoine, ela se trancou. O olhar de Henry encontrou a compaixão estampada nos rostos dos gêmeos e as lágrimas lhe saltaram, involuntárias. Foi de encontro a Antoine e beijou seus lábios primeiramente, antes de beijar os de Andrei. Ao se afastar, percebeu que o mais velho lançava um olhar para o mais novo, pedindo por algo. Foi quando Andrei lançou um tapa com as costas de sua mão na face direita de Henry, que emitiu um leve gemido de dor.

– Nunca pensei que você fosse usar a nossa casa – disse Antoine. – As pessoas estão aflitas lá fora, sabia?

– Desculpa, Antoine. Não sabia que vocês viriam.

– Soube antes de Beijá-lo – desafiou Andrei, se referindo à sua entrada triunfal no salão, há pouco. – Não lhe demos o Dom para que fosse oferecido ao desperdício.

– Eu estava fraco, nauseado – disse, passando as mãos pelos cabelos claros – Marcus estava lá, se oferecendo para mim, como se soubesse... Não tive culpa.

– Henry, o que foi que eu te falei? O Dom deve ser usado para a sua cura, em locais apropriados, com pessoas também apropriadas. Um evento como este, oferecido para uma sociedade que se encontra aos olhos do mundo, não pode ser foco de um escândalo. Ainda mais nos envolvendo.

– Aliás, porque você resolveu pisar em Harvey Hill? – perguntou Andrei, franzindo o cenho.

– Soube do evento pelo meu pai.

– Não. Estou falando da noite de ontem, quando você Beijou Julius Powell.

Henry se sentiu fraco novamente. Sentou em uma poltrona de veludo e levou as mãos à cabeça, preocupado com seu futuro.

– Conheci Julius em um bar na Monroe, bem longe daqui. Ofereci para dar uma carona depois de nossa noite... Não sabia que ele morava em Harvey Hill. Eu não queria Beijá-lo. Ele foi muito bom pra mim.

– Mas você estava com sede – concluíram os irmãos, em uníssono.

– E também com dores no abdômen. Quando vi os olhos de Julius, tão verdes, tão vivos... Não pude me controlar. Eles me chamavam! O corpo dele me chamava.

– E então você resolveu terminar o serviço ali mesmo. – Antoine balançava a cabeça, desaprovando a atitude de Henry. – Em frente à casa de sua vítima. Quão apropriado?

– Eu não tive escolha! Isso está me controlando.

– Ah, claro. A velha desculpa.

Com o rosto escondido atrás de suas mãos, Henry ainda chorava. Com cuidado, Antoine se aproximou, segurou suas mãos e o levantou. Conduziu Henry para mais perto da luz e observou seus olhos lacrimejantes, verificando seu estado. Então, envolveu a face de Henry com as duas mãos, passando os dedos por sua barba rala, apreciando o rosto de seu aprendiz antes de beijá-lo novamente. 

– Andrei, venha ver.

Andrei tomou o lugar do irmão e executou os mesmos gestos, com um esboço de um sorriso dançando em seus lábios. Os olhos azuis de Henry estavam sustentando um brilho diferente, mais etéreo. Sua íris estava adquirindo uma nova coloração, mesclada ao prateado. Andrei se esparramou em um sofá de veludo, sorrindo e satisfeito com a noite. Tirou os sapatos e o paletó, depositando-os delicadamente no assento ao seu lado. Seus olhos tinham uma coloração prateada que eclipsava o azul profundo, assim como os do irmão mais velho. Tinha nascido segundos depois e se sentia inferior, mas nem por isso deixava de amá-lo.

– Seus olhos estão eclipsando, Henry. – comentou Antoine. – O que acha disso?

Henry olhou de um gêmeo para o outro, focando seus olhares, antes de abaixar a cabeça novamente.

– Vou acabar me tornando um de vocês – concluiu.

– E você acha ruim? – perguntou Andrei. Sua expressão traduzia a pura ironia.

– Você já é um de nós, Henry – continuou Antoine. – Só está em fase de desenvolvimento. Como eu já te disse, você vai rápido. Já está sentindo os frutos do Beijo. Percebo que você criou músculos e que sua ferida está cicatrizando.

Ao dizer isso, ele retirou seu blazer e o largou junto ao do irmão. Desabotou sua camiseta de seda escura e também a jogou no chão atapetado. Uma fina penugem morena cobria o peito musculoso de Antoine e, na pouca luminosidade, seus músculos pareciam transcender a beleza esculpida pelos deuses. Apalpou o abdômen em busca da cicatriz em sua base, passando o indicador pela fina linha esbranquiçada.

– Veja. – aproximou-se de Henry e pegou sua mão, fazendo-o tocar a própria cicatriz. – Meu signo já é cicatrizado há anos. O seu ficará assim também, se você continuar. Bom, você não tem escolha.

Henry sentiu a fina linha branca do signo que atravessava a base do abdômen do outro. Certamente Andrei também tinha uma, pois ambos eram filhos do Ritual, assim como ele também era agora. O corte era feito para que doesse em momentos de sede e Henry havia sentido isso. Durante o Ritual, foi dito que o corte se cicatrizaria conforme ele Beijasse, e seus músculos se fortaleceriam. Olhou novamente para a própria ferida.

– Está mesmo cicatrizando. Quantos Beijos até se fechar? – perguntou, sem saber para qual gêmeo se dirigia.

– Não adianta achar que sua sede vai se saciar depois disso. Aliás, ela só aumenta. A diferença é que você vai saber controlar o impulso.

– Eu não devia ter pegado aquela carona com vocês.

– E de que adianta lamentar o passado? – disse Andrei, relaxado. – Você teria se tornado um de nós mesmo se não tivesse compartilhado nossa limusine naquele dia. Observamos você há semanas, Henry. Você é lindo, seus lábios são vida. Não poderíamos deixar de te escolher. É uma pena que Antoine tenha te Beijado primeiro. Eu teria gostado de te degustar. 

Antoine sorriu, lembrando-se do dia em que tinha iniciado Henry na vida abençoada pelo Dom.

– Pare de choramingar, Henry – pediu ele. – Depois que você sentir sua cicatriz aperfeiçoada, você irá me agradecer por ter te iniciado. Percebe que seu corpo mudou? Você está mais atraente do que nunca. – Ele acariciava o peito de Henry – As mulheres irão implorar pelo seu beijo e você não será obrigado a dá-lo. Os homens mais atraentes da cidade irão cair aos seus pés depois do Dom. Não viu Marcus? Filho de Mathieu Borges, sócio majoritário da Dominique. Um dos rostos mais agradáveis de Harvey Hill, com os olhos mais verdes da sociedade. E não resistiu ao seu Charme. Aposto que você nem precisou se esforçar para conseguir o que queria.

Henry refletiu. Realmente não esperava que alguém naquela festa fosse se interessar por ele tão rapidamente. O verde era a sua cor escolhida e Marcus, antes de morrer, foi dono do mais belo par de esmeraldas de Harvey Hill, assim como Julius havia sido antes dele.

– Percebe que a nata dos olhos verdes está perdida? – Antoine ria. Foi até o sofá onde seu irmão estava esparramado e tateou os bolsos do blazer à procura de alguma coisa. Quando encontrou, protegeu-o na palma de sua mão, mas não antes de Henry reparar que o objeto emanava um brilho difuso. Com um gesto, Antoine fez Andrei se levantar e preparar-se. 

Antoine abriu a mão, deixando o objeto exposto em sua palma, mas ele emanava um brilho prateado tão forte que Henry não pôde perceber o que era. Andrei despiu seu tronco, deixando-o nu como o dos outros dois, antes de se colocar de frente a seu irmão gêmeo. Antoine elevou o objeto e o colocou na boca, sem o engolir, antes de beijar o irmão. Durante o beijo, Henry reparou que os corpos de ambos pareciam estar envolvidos por uma bruma prateada que subia e compunha uma espiral difusa acima de suas cabeças. Em um instante eles se separaram e Antoine devolveu o objeto à sua palma, brilhando ainda mais.

Estendeu-o para Henry.

– Engula-o.

Ele pegou o objeto que brilhava e obedeceu a ordem recebida. Não tinha gosto algum, mas ele pôde sentir sua textura estranha.

– O que é isso? – perguntou incrédulo.

– Agora você é parte de nós. Somos três. Trindade. Tríade. – disse Antoine. – Você não sentirá desconforto algum a partir de agora. O que você sente, nós sentimos. O que eu sinto você também sente. Aquilo que te fortalece, também nos fortalece. Somos um elo, Henry. Você só terá a nós. 

– Entenda que aqueles com que você se deitar, serão suficientes para o seu alimento, para sua carne. Você poderá sentir o prazer da vida, da cópula em sua plenitude, mas não sem entregar-lhes a morte. Em vida você só terá a nós. Comigo e com Antoine você se deitará e a morte não chegará. Seremos seus, e você, nosso. Eternamente.

– Eu sou o Escolhido. – as palavras lhe saíam sem permissão. – Pertenço a Vós.

– Agora vista-se – ordenaram.

Os três cobriram-se novamente, calçando as vias da formalidade. A vida agora era eterna e Henry a sentia percorrendo por suas veias, dilatadas de paixão. Já não sentia dor ou desconforto. Percebeu que tinha sede, mas que era capaz de controlá-la. Lembrou-se de Julius, de Marcus, de seus olhos verdes, seu alimento. O preço a pagar pelo Dom não era grande: sentiria o prazer de Beijar a virilidade esmeralda, entregando-a para a morte logo após, mas não sentia remorsos. Aqueles dois foram seus primeiros e muitos outros viriam. Não se preocupava, pois agora tinha Antoine e Andrei para satisfazer seus instintos mais profundos, para amá-lo e respeitá-lo como ser humano, oferecendo em dobro o que Henry nunca seria capaz de desejar uma única vez. Atravessou o átrio do evento sem se preocupar com aqueles que um dia foram seus pais, realizando que logo morreriam. Em companhia de seus gêmeos, desceu a escadaria da mansão e entrou na limusine branca que os esperava, pensando em onde iria para encontrar o sortudo a quem ofereceria seu próximo Beijo.


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