01 - Peregrinos

Atualizado: 3 de out.

O despenhadeiro não a assustava. Estava parada de pé acima de um pequeno monte, observando a grande movimentação logo abaixo, no vale. Uma massa de pessoas, dentre elas jovens, idosos, mulheres e crianças, se organizava em uma fila interminável, rumando para Gahari. A cidade se escondia em meio a grandes montanhas. Para adentrá-la, aqueles que não o faziam através do ar precisavam se esgueirar por uma estrada entre dois penhascos. Apesar de o local parecer assustador, a estrada era segura, pois a encosta das montanhas protegia os habitantes de qualquer animal selvagem ou tempestade de areia. Enquanto ela observava, o grupo de pessoas começou a passar pelos homens que guardavam os enormes portões da cidade. Os guardas eram corpulentos e vestiam tecidos amarelados por baixo da armadura de metal. Eles guiavam as pessoas para dentro das muralhas através de gestos e gritos.
Ela observava tudo, sem saber ao certo o que aquilo significava. Ao seu lado estava Torius, seu irmão. Eram alados. Não tinham asas como os alados das lendas, mas podiam voar. A sociedade em Daeva era assim, dividida entre os que podiam voar e os que não podiam. Ninguém sabia o porquê. Ela seguiu com os olhos a movimentação com interesse.
"O que acha que vão fazer com essa gente?'', perguntou ela ao irmão. Por um momento desviou o olhar da fila de pessoas para encará-lo.
"Os mais fortes talvez tenham chance na guarda da cidade", respondeu ele, sem se desviar da cena. "Temo que os fracos e as crianças sejam colocados em qualquer baixada. Os príncipes de Gahari de mal nada farão, mas também não proverão moradia de qualidade ou alimento suficiente para todo mundo."
"E os imortais não têm poder aqui."
"Não", ele concordou. "Essa gente terá de trabalhar pela sobrevivência."
"Bem, era o esperado. Com a cidade natal em ruínas, tinham que fugir. Fiquei espantada com o consentimento rápido dos príncipes."
"Para eles é um benefício receber refugiados. Assim serão bem quistos pelos mercadores e por todos que vivem dentro e fora da cidade. De qualquer forma não foi sorte, usamos a palavra mágica."
Ela riu e, assentindo, virou de costas para a movimentação, ajeitando a corda do arco em seu peito. O arco balançou de leve, os pequenos sinos que dele pendiam tilintavam ao vento. A alada chamava-se Alaïs e, juntamente com Torius e mais trezentos irmãos de clã, fazia parte dos Peregrinos. Assim eles eram chamados por não possuírem moradia fixa e permanecerem em constante movimento. Estavam atualmente de passagem pelas Terras Vãs, o maior território ao sul de Ala, o maior dos continentes. Apesar de pertencer aos Peregrinos, ela e cada um dos irmãos de clã um dia fizeram parte de alguma família, em alguma cidade de algum reino. Alaïs e Torius eram de Alfeyn, um reino ao norte. Conhecidos pela sua aparência distinta, os alfeyens tinham a pele muito branca, assim como seus cabelos, e não podiam passar muito tempo sob a luz dos astros.
Alaïs olhou para o céu e disse ao irmão de clã:
"Os astros estão quase em ápice. É melhor voltarmos ao acampamento."
Torius alçou voo rapidamente, seguido pela irmã. Os astros, como eram chamadas as duas estrelas que iluminavam os céus de Daeva durante o dia, estavam quase alinhados naquela hora. O primeiro, o maior e mais potente, trazia luz e vida ao planeta desde seu primórdio. O segundo, porém, menor e avermelhado, havia chegado aos céus há alguns anos. Ninguém sabia de onde veio ou qual era o seu propósito, mas desde sua chegada fazia companhia ao primeiro, nascendo e se pondo quando bem entendesse.
Conforme voavam, os alados sentiam o vento bater em seus rostos, fazendo os alvos cabelos e as vestes leves esvoaçarem atrás de si. Alaïs pensava em seus outros irmãos de clã. Os Peregrinos eram liderados por um sacerdote branco treinado em Rök. Hansen era seu nome. Com a ajuda de outros irmãos de clã, ele era responsável pelo recrutamento e pelo rito de passagem que oficializava a entrada de um novo membro no grande grupo. Antes da chegada do segundo astro, para ingressar nos Peregrinos, o candidato era submetido a um jejum de três dias e, ao fim do período, participava da caça a um lince na Mata da Solidão. Na caça, o candidato portava apenas uma adaga feita de osso e deveria matar o lince e então prepará-lo para servir de alimento a todos. Por vezes, mais de uma pessoa solicitava ingresso no mesmo período. Assim, eram providenciados mais animais para a caça e um rito coletivo era organizado. Nos últimos anos, porém, Hansen determinou que a caça ao lince deixasse de ser um rito de passagem. A partir daí, quem quisesse ingressar nos Peregrinos era bem vindo, sem rito. Contudo, a caça a animais e a coleta de frutas e vegetais ainda era uma necessidade e todos se mobilizavam para buscar alimento.
Os Peregrinos não eram um grupo tão famoso fora de Ala, mas alguns senhores de diversas terras já tinham ouvido falar deles em algum momento. Eles buscavam fazer valer os direitos de qualquer cidadão que encontrassem pelo caminho, muitas vezes abdicando de seus próprios direitos. Por isso escolhiam não possuir moradia fixa e andar por terras livres sobrevivendo do que encontravam na natureza.
Os que solicitavam entrada no clã muitas vezes eram prisioneiros que já tinham cumprido o tempo de condenação, guerreiros aposentados, mulheres que desistiram da vida de prostituição ou mesmo adolescentes em busca de alguma aventura. Hansen aceitava qualquer pessoa, homem ou mulher, humano ou alado, desde que se comprometesse com a causa. Na época da criação do grupo eram menos de dez membros, hoje somavam quase trezentos. O alimento por vezes era escasso, a cama nem sempre era boa, mas as companhias e o propósito do grupo a moviam e compensavam qualquer desconforto.
Enquanto Hansen ficava para trás e cuidava do grupo, Torius e Alaïs tinham ido verificar a situação em Gahari. Os dois tinham chegado à cidade no dia anterior, depois de terem ouvido a notícia de que o pequeno vilarejo de Lima tinha sido incendiado. Tiveram esperanças de encontrar com os príncipes na grande fortaleza de Gahari. Naquela tarde, tinham chegado aos portões e solicitado uma audiência com os príncipes da cidade.
"Klaus encontra-se muito doente", havia dito um guarda. "Não receberá visitas hoje."
Na hora, Alaïs rolou os olhos nas órbitas. Todos sabiam que os gêmeos nunca apareciam em público sem a presença um do outro. Isso significava que Nicolai, seu gêmeo, também não receberia os enviados. Foi quando Torius disse ao guarda:
"Diga aos seus senhores que viemos a mando de Meredit."
O homem se espantou. Não foi preciso dizer aos gêmeos quem tinha enviado os dois peregrinos. Era de ordem suprema encaminhar ao salão principal da fortaleza qualquer um que Meredit enviasse. Minutos depois, Torius e Alaïs se encontraram frente a frente com os príncipes. Eram jovens. Os dois estavam sentados em montes de almofadas coloridas de seda sobre um baixo e largo patamar dourado, no centro do salão. Vestiam ricos gibões de cetim vermelho ghäleno, adornados com fios de ouro e mantos listrados. Duas leves coroas de marfim repousavam em seus cabelos. No momento da visita, eles estavam no meio de uma refeição, cada um em uma ponta de uma longa mesa baixa.
Ajoelhado, o guarda apresentou os visitantes:
"Senhores, esses são Torius e Alaïs, dos Peregrinos. Ambos são enviados da senhora Meredit d'Lume."
Na extremidade esquerda da mesa que os separava, Nicolai largou seu garfo dourado sobre o prato em que comia. Por um momento, o ruído metálico que percorreu todo o salão foi o único som a ser ouvido. Seu irmão Klaus ainda mastigava a comida do outro lado, rindo. O guarda não soube onde enfiar a cara vermelha de vergonha. Todos na fortaleza sabiam que Meredit d'Lume era um nome que deveria ser evitado naquele local apesar de ser de grande importância. Ela era a mulher que liderava os Peregrinos junto de Hansen, e também era bem conhecida em Gahari por ser a mãe dos príncipes.
"Deem um passo à frente", disse Klaus aos visitantes.
Torius fez como solicitado e ajoelhou-se.
"Venho em nome de sua mãe, majestade."
"Isso nós já sabemos", cortou Nicolai. "O que essa traidora quer de nós?"
"Que indelicado, Nicolai", o irmão lhe disse. Virou-se para os visitantes com falsa ternura e continuou: "Peregrinos, o que os traz à cidade?"
Torius pigarreou. Atrás dele, ainda de pé, Alaïs se retorceu.
"Viemos em busca de ajuda. Um povoado vizinho, Lima, foi incendiado nesta manhã... Como sabem, príncipes, o segundo astro tem feito muitas vítimas nos últimos anos. O tempo está seco. Gostaríamos de pedir abrigo para a população que vem de lá."
Direto ao ponto. Com os Peregrinos nunca havia rodeios em assuntos de urgência. As pessoas de Lima precisavam de abrigo, a cidade mais próxima era Gahari. Por sorte tinham conhecidos importantes. Esse era o ofício que dava objetivo ao grupo: justiça. Os Peregrinos buscavam sempre fazer o melhor que podiam por aqueles que precisavam.
Klaus, ainda sorrindo, olhou para o irmão do outro lado da mesa. A expressão de Nicolai era de puro ódio. Provavelmente ainda pensava na mãe e, talvez, nem tivesse prestado atenção ao pedido.
"Abrigo?", prosseguiu Klaus. "E são quantas as pessoas que necessitam de abrigo, peregrino?
"Cento e cinquenta, eu calculo. São em sua maioria mulheres e crianças. A população de Lima é forte e dedicada, príncipe. Alguns talvez possam ajudar na guarda da cidade, outros são talentosos artesãos e comerciantes."
"Desses assuntos trataremos nós." A expressão de Nicolai transbordava irritação. "Nossa mãe é quem pede ajuda para eles?"
"Sim, senhor."
"Eles podem vir para cá, vamos acolher. A cidade é grande, trabalho não faltará. Você concorda, Nico?"
Nicolai mantinha o semblante fechado, mas assentiu. Com os lábios entreabertos, Alaïs parecia surpresa com a rápida decisão. Torius se levantou e disse:
"Em nome dos Peregrinos, eu agradeço."
E assim se deu o encontro dos irmãos de clã com os príncipes de Gahari, de forma rápida e sem problemas.
Agora, dando uma última olhada na cidade ao longe, Torius rodopiou no ar e viu a irmã de clã fazer o mesmo. Segundos depois, ambos se encontravam em outra paisagem: os penhascos de terra vermelha que rodeavam a cidade de Gahari haviam sumido, dando lugar a inúmeros montes verdes que se perdiam no horizonte. Ainda assim, era possível ver ao longe a grande área avermelhada que haviam deixado para trás. Além da habilidade nata de se erguer aos céus, os alados não possuíam outras artes que os humanos também não dominam. Com a desmaterialização era diferente. Havia no mundo poucos alados que conheciam essa arte e a maioria deles pertencia aos Peregrinos. Todos haviam sido treinados por Hansen, quando ele resolveu que o grupo poderia fazer algo mais do que somente andar de um lado para outro. Hansen era um homem de muitas habilidades e algumas eram transmitidas ao grupo. Quem conhecia os Peregrinos sabia que eles eram diferentes e, muitas vezes por esse motivo, as pessoas queriam se juntar a eles.
Alaïs apareceu com um estalo surdo ao lado de Torius, que pairava a alguns metros da abóbada de uma grande árvore. Ela diminuiu a velocidade e encarou o semblante do irmão de clã.
"Há algo errado?", perguntou ele.
"Eu ainda não me acostumei com essa habilidade de Hansen. Estou meio tonta."
"Você se acostuma, tenho certeza. Eu me acostumei". Com o dedo indicador ele cutucou a barriga da irmã de clã por cima do couro. "Nos primeiros dias eu sentia muito enjoo toda vez que me desmaterializava. Aí descobri que era falta de uma boa refeição. Acho que é disso que você está precisando."
"Talvez seja," sorriu, com vergonha.
Continuaram voando por mais alguns minutos até encontrarem o centro da grande floresta que chamavam de Mata da Solidão. Ela tinha muitos quilômetros de extensão e altura – algumas das árvores milenares chegavam a atingir quarenta metros. Um ser humano por terra poderia demorar vários dias para sair de seus limites. Os Peregrinos haviam montado um acampamento provisório perto de um riacho ali no centro da mata, onde água e provisões não faltariam. Alaïs e Torius haviam acabado de atravessar a densa abóbada da mata quando avistaram o acampamento: tendas muito próximas umas das outras, em formação quase geométrica. Olhando o acampamento todo ali de cima, Alaïs notou, não pela primeira vez, que as tendas em conjunto formavam uma grande estrela de cinco pontas.
Eles aterrissaram em uma pequena área ao lado da tenda principal. Os irmãos de clã que trabalhavam fora das tendas – pescando ou cortando lenha – saudaram os recém-chegados com reverências e sorrisos. No grupo, humanos e alados viviam em sintonia; a rivalidade por vezes existente entre as duas espécies ali não encontrava espaço. Sem demora, Torius e Alais entraram na grande tenda branca esperando encontrar Hansen e Meredit. Somente o homem estava presente. O sacerdote estava sentado em sua almofada preferida, disposta junto de outras em volta de uma peça quadrada que lhe servia de mesa. Com alguns papeis na mão, Hansen mantivera os olhos fixos na entrada da tenda desde antes de os dois alados entrarem. Havia sentido a presença dos irmãos de clã assim que se materializaram nas alturas.
"Então Meredit estava certa", disse ele, sorrindo.
Apesar de ser um sacerdote, Hansen vestia um gibão de couro fervido e tingido de negro por cima de uma camisa branca de mangas compridas e calças de linho. Era jovem para um sacerdote, aparentava ter menos de quarenta anos, seus cabelos castanhos eram curtos e desarrumados. Pareceria um humano qualquer ao primeiro olhar, mas bastavam alguns minutos com ele para que notassem suas peculiaridades. Era capaz de predizer acontecimentos, sentir vibrações no ar e conhecia muitas coisas. Seus sentidos eram mais aguçados, o que ajudava muito o grupo em diversas situações. Ficou de pé ao cumprimentar os recém-chegados.
"Sim, mestre Hansen", assentiu Alaïs. "Antes, nos disseram que Klaus estava doente, mas bastou mencionar um nome para que nos recebessem. Onde está ela, afinal?"
"Foi até o rio", respondeu Hansen. Inspirou o ar lentamente antes de prosseguir. "Já está voltando com peixes frescos."
Os alados não pareciam surpresos, estavam acostumados com as premonições do sacerdote.
"E como estão os príncipes?", indagou ele.
"Não estão doentes", foi Alaïs quem respondeu. "Estavam comendo muito bem também. Tinham um grande banquete."
"Não me surpreende. Em Gahari têm acesso a alimentos do mundo todo. Podem ter o que quiserem. Não parecem filhos de Meredit."
Os três sorriram. Hansen fez um gesto para que os dois o seguissem para fora da tenda, onde alguns homens ainda cortavam lenha. Tinham acendido uma fogueira entre as enormes árvores e outros peregrinos tiravam as tripas de alguns peixes. Inúmeras outras fogueiras iam aparecendo por toda a extensão do terreno repleto de tendas. Os astros logo iam se pôr e os peregrinos já preparavam o fogo que iluminaria a noite e daria a eles o que comer. Hansen e os dois alados aproveitaram que o céu ainda estava claro para ajudar a preparar a janta. Foi quando ouviram um barulho de cascos.
Finalmente Meredit estava voltando.
Os cascos do cavalo de Meredit anunciaram seu retorno e o grupo sentado em volta da fogueira parou para observar. Entre as árvores, a imagem era essa: uma mulher de volumosos cabelos vermelhos montava um cavalo de cor clara. Tanto seus cachos quanto a crina perolada do animal esvoaçavam. Meredit d'Lume vestia-se quase como Hansen, mas no lugar de calças ela usava uma saia rajada de branco e preto e no pescoço levava um grande medalhão. Em um minuto havia chegado. Ela pulou do dorso do cavalo para a terra firme, tirando de uma correia um cesto fechado. Segurou o cesto com uma mão e usou a outra para dar um meio abraço em Torius e Alaïs.
"Pensei que vocês demorariam mais", disse. "Não pela distância, mas pelo temperamento daqueles dois.”
"Também nos surpreendemos com a rapidez dos príncipes, senhora", disse o alado. "A população de Lima já estava sendo guiada aos portões quando saímos de lá."
"Então não errei em avisá-los."
O sincero sorriso estampado na face de Meredit denunciava sua alegria. A população estava a salvo. Para os ouvidos de muitos, seus filhos haviam oferecido ajuda ao povo de Lima, ainda que somente parte disso fosse verdade. Olhando ao redor, a peregrina soltou um suspiro de alívio e piscou para Hansen.
Meredit era uma das humanas mais lindas que Alaïs já vira. Seu rosto rosado era emoldurado pelos rubros cabelos e deixava claro que não era mulher de carregar rancor. Os traços de sua expressão eram finos, mas também marcantes – assim como sua personalidade. Apesar de toda sua delicadeza, a dama era dura com as palavras. Era assertiva com todos que ousavam desafiá-la ou que merecessem reprimenda. Ela deixou-se demorar no abraço de Hansen, dando um beijo na face rosada do sacerdote antes de se sentar junto ao fogo.
"O terreno está bom ao norte da Mata", disse, descalçando as botas. "Os rios estão fartos e as pequenas clareiras estão bem floridas. Talvez eu volte para colher algumas ervas amanhã, precisamos de novos remédios. Alaïs pode me acompanhar se quiser."
"Com prazer, senhora", a alada respondeu.
"Encontrei também rastros recentes de algum grupo e restos carbonizados de fogueiras. Não tenho ideia de quem pode estar andando por esses lados."
"Talvez sejam os valanos. Dizem que este lugar guarda uma das entradas para a Vala", afirmou Hansen. "De qualquer forma, é intrigante pensar nos valanos andando sobre a superfície. Suas aparições são muito raras."
"Eu gostaria de conhecer um valano", disse Torius.
"Valanos ou não, espero que cruzemos com eles. Talvez tenham informações importantes sobre o clima no leste. Além do mais, nós ainda não podemos sair da Mata". Meredit os encarava com sua expressão mais séria. "Estamos com poucas provisões."
"Torius e eu podemos caçar amanhã", afirmou Alaïs. "Depois da coleta, é claro".
"Os peixes que eu trouxe vão suprir nossas tendas pelos próximos dias. Depois, podemos acampar próximo à alguma cidade. Não sei como estão as pontas."
Por se tornarem um clã de grandes proporções, nos últimos anos haviam decidido se dividir em subgrupos de em média cinquenta pessoas. Havia seis grupos ao todo: um núcleo e cinco pontas. O núcleo era basicamente formado pelos humanos e alados que estavam ali reunidos, junto de mais um grupo de em média quarenta pessoas. O núcleo vivia reunido em volta da tenda de Hansen, as pontas se irradiavam dali.
"As pontas dois e três têm o suficiente para mais uma temporada, as outras estão neste momento se preparando", disse Hansen. "Alguns homens das pontas um e quatro foram caçar e devem retornar em breve. Por enquanto vamos manter nossa posição."
Todos pareciam satisfeitos com a decisão. Seguindo o exemplo de Meredit, Alaïs e Torius removeram as partes mais incômodas das roupagens, como os casacos e as botas, e continuaram sentados nas pedras em volta do fogo.
"Ainda não temos notícias de Johan?" o alado perguntou ao sacerdote. Hansen fechou os olhos por um momento e, concentrando-se, respondeu ao irmão de clã:
"Não consigo sentir a presença dele. Estou começando a ficar preocupado. Já se passaram semanas desde que ele partiu, sem armas ou montaria."
"Johan não volta enquanto não se der por satisfeito. Decerto se perdeu em algum despenhadeiro", riu Meredit. "Vocês se lembram daquela vez no Pouso do Pardal?"
Todos se lembravam da vez em que Johan tinha se perdido nas alturas de um penhasco costeiro conhecido como Pouso do Pardal. Foi encontrado por dois peregrinos alados, escondido em uma saliência num dos degraus do Pouso, quase uma semana depois de ter sumido. Torius sorriu quando disse:
"Na época ele ainda não dominava a desmaterialização."
Johan era o único ser humano dos Peregrinos, e talvez o único de sua espécie, que compartilhava com Hansen a arte da desmaterialização. Ninguém sabia como e, quando questionado sobre a habilidade, Johan dava um de seus sorrisos e se esquivava da questão. Era jovem, e apesar de não ser dono dos comportamentos mais adequados, era responsável e fazia coisas que poucos homens fariam a favor do clã. Com isso Johan se tornava um pouco convencido em algumas situações. Até hoje costumava se gabar de quando matou seu lince em dez minutos de caça, com um corte rápido no pescoço do pobre animal. O corte só não tinha sido mais limpo por falta de fio na faca, por ser feita de osso.
"Esperaremos mais alguns dias, se ele não chegar, vamos enviar alguém à sua procura" decidiu Meredit. "Bom, temos que esperar pelos outros de qualquer forma. Podemos fazer isso enquanto comemos."
O aroma de peixe assado na fogueira seduzia os presentes. Estava quase anoitecendo e a madeira alimentava as chamas de dezenas de fogueiras acesas de uma extremidade a outra do acampamento. A iluminação tornava possível enxergar entre as árvores a maioria das pontas se alimentando e conversando em pequenas rodas. Alguns eram dotados de conhecimento musical e tocavam instrumentos improvisados, para a alegria de muitos.
Geralmente, cada grupo ou família ficava responsável pelo próprio jantar, inclusive Meredit e Hansen, mas era comum que vários se responsabilizassem pela alimentação dos demais. Alguns eram melhores na caça, outros sabiam quais vegetais eram viáveis para o consumo. Os períodos em que visitavam a Mata da Solidão eram fartos. Alaïs se serviu de uma porção de peixe em uma tigela de madeira, enquanto Torius abocanhava um deles quase inteiro. Sentados em volta do fogo, concentrados em matar a fome, os quatro iniciaram uma conversa com os demais que por ali jantavam. Os peregrinos que traziam algum comunicado importante ou que tinham algo a dizer costumavam fazer as refeições noturnas junto aos mestres, banhados pela luz das fogueiras. Nessa noite não foi diferente. Um peregrino das pontas disse ter encontrado um viajante solitário pela manhã. O homem tinha dito ao peregrino que alguns boatos circulavam pelas bocas e ouvidos dos cidadãos que moravam em Calmaria e nas pequenas vilas das bandas do Porto de Cal.
Supostamente, os navios traziam histórias sobre uma movimentação de Carmesins em Ghäle, do outro lado do Mar Imortal. Outros diziam ter ouvido algo sobre um prisioneiro, alguém de índole perigosíssima que tinha escapado dos Calabouços de Catharsis. O fato era que ninguém sabia com certeza o que tinha acontecido, se algo havia mesmo acontecido. A cada navio que ancorava no Porto, uma boca trazia uma história diferente. O peregrino ainda contou que tinha encontrado um declive na extremidade sul da Mata da Solidão, onde havia notado restos de um acampamento. Quando Meredit comparou suas observações com as do peregrino, decidiram que o acampamento poderia pertencer ao mesmo grupo que também tinha deixado os rastros que ela encontrou.
Só não sabiam dizer se eram os valanos ou não.
Outro homem dissera durante o jantar que tinha avistado um grupo de alados sobrevoando a Mata mais cedo, muito altos no céu. Ele tinha achado que eram pássaros, mas uma iluminação diferente denunciou a presença de armaduras. Se os alados tinham vindo de Ghäle ninguém sabia, mas, comparando com o que ouvira há pouco, Hansen deduziu que seriam Carmesins. Também era intrigante pensar em mercenários sobrevoando céus tão longe de casa. Movimentações como essas não eram tão frequentes em Ala.
Apesar de todas as informações recolhidas, o núcleo decidiu encerrar as discussões e descansar enquanto fosse possível. O dia seguinte reservava mais buscas e era preciso reunir energias para encarar os perigos da Mata. Torius e Alaïs terminaram de comer e se recolheram em suas tendas, enquanto Meredit e Hansen permaneceram ali mais um pouco, tentando observar o brilho de algumas estrelas através da abóbada da grande floresta.



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