03 - Valanos


Na manhã seguinte à sua visita à Gahari, Alaïs acordou em sua tenda animada para o dia que viveria. Tinha descansado bem, dormido um sono sem sonhos em uma noite sem perturbações. Ansiava pelas horas que passaria na companhia de Meredit aprendendo um pouco sobre o trabalho com as ervas. Também sabia que poderiam encontrar suprimentos essenciais para o sustento do clã, o que trazia a Alais uma espécie de paz de espírito. Ela seria útil. A alada levantou da cama de folhas e começou a arrumar a mochila que levaria. Na noite anterior, pouco antes de se deitar, havia separado pás e outros instrumentos que Meredit lhe ensinara a confeccionar há alguns meses, além de sua adaga preferida, cujo cabo era feito a partir do chifre do lince que matara na sua vez de entrar para os peregrinos. Lembrava-se daquele dia com carinho sempre que empunhava a adaga, faria bem usá-la na coleta de ervas naquele dia. Seu arco estava apoiado em um dos troncos que sustentava a tenda e ficaria ali pelo resto do dia. Não pensava em caçar hoje, o clã já tinha carne o suficiente para as próximas semanas, o objetivo era colher.
Meredit já estava pronta quando Alaïs saiu para a luz da manhã. A mulher trajava uma roupa mais confortável, ainda que fosse cavalgar. Suas botas eram as mesmas, percebeu Alaïs, mas agora usava uma saia de estampa vermelha. A matriarca dos Peregrinos ajeitava os últimos itens na sela de Kala, sua égua. Alaïs sempre ficava admirada com o animal toda vez que o via: Kala era dona de uma pelagem única. Era clara, mas não branca, e tinha uma ondulação tal que a cada ângulo visto a tonalidade se alterava. Pensando bem, hoje Alaïs poderia compará-la ao pulsar perolado das novas madrugadas, após a chegada do segundo astro. Suas patas eram cobertas pelos mesmos fios sedosos que a crina, e as ferraduras, ainda que antigas, brilhavam como prata quando os raios do astro comum refletiam a luz. De acordo com o relato de Meredit, a égua nasceu nas planícies de Avia, onde vivem os melhores criadores de cavalos. Pertencia à linhagem sanguínea dos Menores, uma das lendárias gerações de montarias. Todos eram criados a partir de uma técnica amplamente dominada pelos criadores de Avia, sendo passada entre os membros de suas famílias por gerações. Alais não sabia como a peregrina conseguira tal montaria, as línguas diziam que se você não pertencesse às grandes famílias, precisaria merecer o animal para que pudesse montá-lo. Era presenteado. Um dia teria que perguntar para a mulher sobre essa façanha.
"Acordou cedo, menina", disse Meredit para a alada, sorrindo. "Ótimo saber que está motivada para uma não tão animadora manhã. Coleta pode ser algo bem tedioso".
Alais também sorriu. Estava mesmo motivada.
"Sempre bom estar na sua companhia, senhora."
E era. Alais valorizava os momentos que passava com os veteranos do clã, como Hansen ou Meredit. Sua vida estava dedicada àqueles que lhe acolheram quando mais precisou. Torius dizia que o conhecimento dos mais velhos era precioso demais para não ser absorvido e ambos eram versados em diversas artes. Aquela manhã seria como uma aula para ela. A mata onde estavam era bem rica, deveria abrigar os mais diversos tipos de criaturas, plantas e flores, Alaïs poderia aprender muito ali. Botânica era uma área que valorizava e gostaria de também ser versada nela. Um dia saberia tanto quanto Meredit e poderia transmitir seu conhecimento a outros peregrinos no futuro. Pelo menos era isso que esperava.
Montada em seu próprio cavalo, Alaïs seguiu a matriarca pela trilha sinuosa que se afastava do acampamento, em direção ao norte. Apesar de ser uma alada, gostava de cavalgar com os irmãos de clã e deixava os momentos de vôo para as missões com Torius. Voar fazia parte da natureza sua e do irmão desde a infância, mas ela evitava. Alaïs preferia os meios mais convencionais de se locomover. Pensando nisso, esporeou seu cavalo para alcançar Meredit. A mata era densa em alguns trechos e era preciso se esgueirar por entre as grandes folhagens para explorá-la. Cavalgou por alguns minutos enquanto ouvia Meredit falar, despretensiosamente, sobre alguns tipos de árvores pelas quais passavam. Verdes e marrons em sua maioria, mas algumas folhagens sustentavam diversas outras cores, como vermelho, amarelo e violeta.
Meredit conduziu Kala até próximo a uma árvore grande, de tronco largo, e puxou as rédeas de Kala ao seu lado. A árvore tomava boa parte da visão e suas folhas eram de um verde intenso.
"Se você reparar, essa árvore se assemelha muito àquela outra", disse ela, apontando também para outra árvore, mais à frente. A segunda árvore possuía folhagem vermelha. "Apesar de parecerem iguais, são de espécies diferentes. Não se diferenciam só pela cor. A fruta que nasce desta pode nos alimentar, mas a de folhas vermelhas não dá frutos. Sua seiva pode ser usada para fabricar um poderoso anestésico. Hoje não vamos colher essa seiva, precisamos mais de folhas e frutos."
Então, direcionando Kala para o sentido oposto, fez com que a égua desse um forte coice no tronco da árvore. Em instantes, uma porção de frutas amarelas caiu da árvore mais próxima. Alaïs desceu de seu cavalo para apanhá-las. Levava um grande cesto amarrado à sela e, usando um saco de estopa, guardou o que conseguiu colher. Não conhecia a fruta. Meredit se aproximou do cesto, pegou uma delas e usando sua própria adaga partiu-a no meio, oferecendo metade à Alais. A peregrina saboreou o suco com grande surpresa: era bem doce.
"Em Gahari a chamam de toranja-da-mata. Eu a conheço como citra. A geleia dessa fruta também pode ser maravilhosa, se bem feita."
Sem mais detalhes, Meredit voltou a cavalgar. Alaïs terminou de sorver o suco da citra e jogou fora a casca e o bagaço, o solo os absorveria.
Seguiram mata adentro, com Meredit compartilhando seus conhecimentos com a peregrina, que fazia o máximo para memorizar tudo. Por vezes paravam os cavalos em clareiras ou próximo a arbustos para colher folhas, sementes e tubérculos.
Alaïs comeu um pouco de tudo que pôde, degustando os sabores que a Mata da Solidão oferecia. Encontraram castanhas e ervas que seriam usadas como temperos, o que seria muito bem recebido pelo grupo. A alimentação do núcleo nem sempre era saborosa, dependia de quem cozinhava. Alguns usavam mais temperos que outros, então era sempre bom tê-los em mãos. Os peregrinos diziam que as matriarcas da ponta quatro eram as melhores cozinheiras do clã, mas Alaïs não conhecia realmente ninguém de lá. Teria que continuar confiando na culinária dos peregrinos do núcleo. No meio da manhã, as duas já haviam preenchido mais da metade do cesto e Alaïs começou a sentir sede. Não haviam cruzado com nenhum riacho, mas Meredit garantiu que mais à frente encontrariam uma das margens do Katiri, o grande rio que cruzava a mata e uma parte do continente.
Não demorou muito. Alaïs logo avistou as águas cristalinas do Katiri, que corriam ligeiras e em direção à foz bem mais adiante. Meredit dizia que o rio desembocava em uma porção maior de água fora da Mata, uma região de lagos que Alaïs não conhecia. A peregrina se ocupou em beber copiosamente enquanto a outra mulher lhe explicava sobre a região. Os lagos eram cristalinos e abrigava várias espécies de peixes que poderiam servir de alimento ao clã. Era ali que Meredit tinha ido pescar no dia anterior.
"Eu quero explorar a mata um pouco mais à frente", disse Meredit. "Os relatos que recebemos ontem me deixaram intrigada. Se os valanos estão mesmo na superfície, vale a pena tentar descobrir um pouco mais."
Ambas cavalgaram mata adentro. Alaïs ouvia a matriarca dos Peregrinos contar sobre os lagos e como os donos das pequenas propriedades ao redor se beneficiavam do que aquele ecossistema oferecia. Embora Ala fosse um continente majoritariamente árido, sua superfície era pontilhada por lagos profundos de água cristalina. Alimentados por antigos aquíferos, eles sustentavam a pesca e a agricultura das comunidades ao redor.
Conforme adentravam mais a atmosfera misteriosa da Mata, Meredit refletia que enquanto a superfície prosperava, o mesmo não podia ser dito da Vala. Localizada sob o continente, a Vala era uma vasta rede de túneis e cavernas cuja extensão jamais fora mapeada. Ninguém sabia ao certo até onde ela se estendia ou quantas pessoas viviam em seu interior. E ninguém poderia saber. Os valanos não tinham fama de ser um povo sociável. Diziam que quem tentasse entrar na Vala por qualquer caverna ou reentrância conhecida, era capturado. Por isso, ninguém se aventurava.
Outra coisa que mantinha as pessoas longe de seus domínios era a aparência dos valanos: vestiam capas e mantos feitos de plantas e usavam máscaras. Ou era o que também diziam. Poucos podiam afirmar ter de fato avistado um valano, pois não saiam de suas terras e tampouco se aproximavam de povoados. Contudo, desde a chegada do segundo astro, suas aparições pareciam ter aumentado.
"Quando um peregrino afirma ter avistado um deles, eu prefiro acreditar", concluiu ela. "Deve haver um motivo sério para fazer com que eles subam."
Alaïs se perguntava se Meredit, ou mesmo Hansen, conhecia alguma das entradas da Vala. Estavam na Mata da Solidão havia algum tempo, não costumavam permanecer em um mesmo local por mais de uma estação. Sabia que deveriam ter partido das Terras Vãs há dias, mas o incidente em Lima os havia atrasado. Não que tivessem um cronograma rígido, mas Hansen costumava ordenar que partissem dias antes do fim de uma estação e até agora nada havia mudado. Já podia ouvir entre os irmãos de clã burburinhos sobre a longa permanência do grupo naquele local. Alaïs realmente não se importava.
Sentia-se, finalmente, parte de um grupo.
Queria viver e aprender com os líderes que admirava e ainda podia passar os dias ao lado do irmão. Torius, por outro lado, ansiava por desbravar Daeva e visitar seus locais mais inóspitos. Já tinha visto muito mais do mundo que ela e, apesar das diferenças, compartilhavam a mesma opinião: Daeva tinha muito a oferecer.
Alaïs imitou a matriarca e conduziu seu cavalo para a margem do Katiri. Ela deixou que ele bebesse da água cristalina, que corria para oeste. O rio não era muito largo, a alada conseguiu enxergar a margem oposta sem dificuldade. A Mata da Solidão estendia-se até onde a vista alcançava, ocupando toda a paisagem. O rio levava alguns troncos e amontoados de folhas, mas fora isso não havia nada que as duas já não tivessem visto desde o início da manhã. Meredit rompeu o hábito de a todo momento educá-la e permaneceu em silêncio por algum tempo. Alaïs deixou que assim fosse.
Observou enquanto a matriarca colhia ervas e frutos, examinando-os de perto antes de guardá-los na cesta. Sentou-se à base de uma árvore de tronco largo, de frente para o rio, e se dedicou a afiar sua adaga. Essa tarefa ajudou a acalmar Alaïs, que se cansara um pouco da longa cavalgada pela mata, e resolveu apenas escutar o som da natureza. O som do rio era reconfortante.
Naquele momento, Alaïs percebeu que estava feliz.
Era exatamente como imaginara passar a manhã após a desagradável visita aos gêmeos em Gahari. Agora, não conseguia compreender como aqueles dois pirralhos eram capazes de detestar a mulher que estava ali com ela. Lembrou-se de quando conheceu Meredit, ao ingressar nos Peregrinos há cinco anos. Na época, Alaïs tinha decidido deixar Alfeyn. Torius havia saído da cidade anos antes, depois da morte do padrasto deles, um velho bêbado. A vida em Alfeyn não tinha sido ruim enquanto a mãe deles estava viva. Porém, após sua morte, o padrasto começou a beber e a rotina se tornou intragável. O velho foi encontrado morto na manhã seguinte a mais uma discussão. Tinha morrido de tanto beber. Contudo, os moradores da vizinhança logo culparam Torius, pois ouviam as brigas constantes. Torius não aguentou a pressão, foi acolhido pelos Peregrinos quando passaram pela cidade e partiu com eles, já que as autoridades não conseguiram comprovar qualquer crime. Alaïs decidiu permanecer em Alfeyn e passou a morar com uma tia que mal conhecia. Resistiu por três anos, mas a vida sem a presença de sua família foi difícil de suportar. Torius era tudo o que ela tinha. E foi assim que decidiu também se juntar aos Peregrinos. Na época, ela não sabia que se afeiçoaria tanto a eles. Tinha perdido uma família, mas encontrara outra.
Perdida em seus pensamentos, Alaïs demorou a se dar conta de que, além do som do Katiri que corria à sua frente, não ouvia mais nada. Não ouvia os muitos pássaros que a Mata abrigava. Nem os animais rastejando e movendo-se entre as folhagens. A Mata da Solidão estava estranhamente silenciosa. Antes que pudesse comentar qualquer coisa, a alada olhou alarmada para Meredit, que a observava.
"Eu também percebi. A Mata se cala diante de seus guardiões. Olhe lá."
A matriarca apontava para a margem oposta. Quando Alaïs se voltou naquela direção, seu coração deu um pulo: havia alguém parado do outro lado do Katiri. A visão lhe causou certo assombro, pois era exatamente como diziam as lendas. A figura vestia um longo manto feito de plantas e usava uma máscara pintada de diversas cores. Um valano. Bem ali, na sua frente. Alaïs percebeu que estava boquiaberta. Presenciava algo em que poucos acreditariam. Não conseguiu dizer nada, embora quisesse comentar com Meredit o que via. Ainda que estivesse mascarado, o valano parecia observá-las também. A leve brisa movimentava as plantas do manto da figura. O manto era formado por flores coloridas e folhas dos mais diferentes tipos. Sem dúvida, fora confeccionado à mão, cuidadosamente, com cada elemento posicionado de forma deliberada. Alaïs achou que a visão se parecia com as imagens de seres místicos que via estampadas em tapeçarias nas grandes cidades. Meredit deu um passo à frente, talvez para tentar contato ou vê-lo melhor, mas interrompeu o segundo passo quando um outro valano surgiu devagar por trás do primeiro. Era menor e vestia um manto similar, mas sua máscara era muito diferente da do outro. Não tinha cores, era preta e branca. O segundo valano tocou o braço do primeiro, chamando sua atenção. Ambos deram meia-volta e rapidamente desapareceram por entre as folhagens da Mata.
Alaïs sentiu a tensão se dissipar. Conseguiu tirar os olhos da margem oposta depois de alguns minutos. Parecia irreal. Ela refletia que, desde o início de sua vida entre os Peregrinos, ouvira falar de diferentes povos e culturas, mas nenhum tão misterioso quanto os valanos. Mas eles eram reais, ela tinha visto com os próprios olhos. Percebeu que estava ansiosa pela reação de Torius quando soubesse. O irmão já lhe contara tantas coisas incríveis, seria a primeira vez que o contrário aconteceria. Alaïs se levantou em um pulo, voltando-se para Meredit, que amarrava sua cesta de volta à cela de Kala.
"Você já os tinha visto antes?", perguntou à matriarca.
Meredit balançou a cabeça positivamente.
"Uma vez, anos atrás. Não achei que fosse acontecer de novo."
"Aqui na Mata também?"
"Não. Foi perto de Lume, minha cidade natal. Eu havia acabado de conhecer Hansen, estávamos visitando meus pais."
Alaïs percebeu uma mudança sutil na expressão da matriarca. Meredit permaneceu em silêncio por alguns instantes, olhando para a Mata como se refletisse sobre alguma coisa.
"Mas Lume fica muito distante daqui", disse ela, enfim. "A extensão da Vala não é conhecida, mas, se seus habitantes aparecem em lugares tão distantes entre si, imagino que ela seja bem maior do que dizem. Deve existir por toda a extensão do continente."
Alaïs apenas assentiu. Não saberia dizer nada sobre isso.
"Vamos voltar", decidiu Meredit. "Colhemos o suficiente."
Ela montou seu cavalo. Alaïs ainda pensava nos valanos.
"Eles sabiam que estávamos aqui?", perguntou ela, curiosa.
Meredit sorriu.
"Sim. Eles permitiram que nós os observássemos."
Pensando naquelas palavras, Alaïs a seguiu.
De volta ao acampamento dos Peregrinos, Meredit se ocupou com a organização dos provimentos e se recolheu na tenda central. Depois de despedir-se da matriarca, Alaïs foi até a tenda que dividia com o irmão. Depositou sua mochila no chão e se deitou na cama de folhas. A imagem dos valanos ainda estava gravada em sua mente. Ela sentia que a emoção daquele encontro ainda não tinha se dissipado completamente. O silêncio que havia tomado conta da Mata anunciando que a atmosfera havia mudado, Meredit já ciente da presença dos valanos… tudo contribuíra para tornar o momento ainda mais marcante. Eles eram os donos daquele lugar.
Durante a volta para o acampamento, Alaïs passou a perceber a Mata de outra forma. Antes, quando visitavam aquela parte familiar da região, ela costumava se sentir em casa. Agora, sentia-se como uma intrusa. Nunca antes pensou em estar invadindo o espaço de outra pessoa. Nesse caso, de todo um povo. Os peregrinos buscavam acampar fora de áreas abertas ou cidades, se assentavam por um período de tempo e partiam. Contudo, estavam na Mata já há muito tempo. Não pertenciam àquele lugar. Só agora, Alaïs começava a compreender a inquietação de alguns irmãos de clã com a urgência em partir.
Estava perdida nesses pensamentos quando Torius ergueu a aba da tenda e entrou. Ela observou o irmão sentar na cama ao lado, com o semblante sério.
"Você parece cansada", disse ele.
Alaïs fez uma careta.
"Não estou cansada."
Torius não comentou.
"Estou abalada, acho", acrescentou ela, sentando-se na cama.
Ela olhou para o irmão. Torius tinha feições muito parecidas com as dela. Não fosse a diferença de idade, todos diriam que eram gêmeos. Cabelos lisos e brancos - o dele longo, caindo às costas e o dela curto na altura das orelhas -, olhos e pele muito claros. De feições delicadas, ângulos retos demais, os alfeyens não eram muito comuns em Daeva. Viviam em sua maioria na cidade natal, ao norte de Ala. Poucos deles se aventuravam para fora daquelas terras, pois temiam os astros. Quando passavam muito tempo à luz do dia, sua pele se avermelhava e a pessoa podia adoecer. Muitos outros humanos, alados ou não, compartilhavam daquelas características físicas tão distintas, mas nunca de forma tão particular como nos alfeyens.
Alaïs fitou o azul dos olhos de Torius com sua expressão mais séria.
"Os valanos são reais", disparou ela. Estava sentada com os cotovelos apoiados nos joelhos, com o olhar fixo no irmão.
Ele riu.
"É sério. Eu vi dois valanos lá na Mata."
Torius diminuiu o sorriso. Pareceu acreditar nela.
"A Meredit também viu. Eles são altos, usam mantos de flores como nas lendas, máscaras esquisitas. São silenciosos, olharam para mim. Eu acho."
Ela desembuchou a história toda. Contou o decorrer da sua manhã ao lado da matriarca, o que tinha aprendido, as partes da Mata que conheceu, mas nada com tanta riqueza de detalhes quanto o breve encontro com aqueles seres. Torius ouviu sem interromper. Quando ela acabou, ele soltou um longo suspiro.
"Você viveu algo que eu espero viver há anos", revelou ele. "Sempre ouvimos falar dos valanos, boatos sobre sua aparência, seus costumes. Nenhum relato é igual ao outro. O seu me pareceu o mais verídico. Você descreveu uma atmosfera que eu jamais teria imaginado."
Ao ouvir o irmão, Alaïs se deu conta de que ela e Meredit talvez fossem, de fato, as únicas pessoas ali a terem avistado os valanos em muito tempo. Isso dava mais sentido ao que a matriarca havia dito a ela, aquilo sobre eles se permitirem ser observados. Os valanos queriam que elas os vissem. Agora, uma nova pergunta surgiu na mente de Alaïs: por que ela? A peregrina compartilhou sua dúvida com o irmão.
Torius pareceu refletir por um momento.
"A dúvida que eu tenho, na verdade, é outra", respondeu ele, enfim.
"Qual é?"
"Por que agora?"
A pergunta pairou no ar da tenda enquanto ambos pensavam nela. Alaïs não sabia responder, mas sabia quem seria a melhor pessoa para pensar em uma resposta.
"Precisamos contar a Hansen", alertou ela.
Torius concordou.
"Meredit deve estar contando a ele neste instante."
Os dois se entreolharam. Ansiedade tomou conta de Alaïs e ela pôde ver que o irmão estava sentindo o mesmo. Precisavam ouvir o que ambos os peregrinos tinham a dizer sobre os valanos. Torius foi o primeiro a quebrar a tensão.
"O grande astro está alto no céu."
Alaïs nada disse, só concordou, balançando a cabeça.
Como se tivessem combinado, os dois sorriram. A segunda refeição dos peregrinos era feita no meio do dia, quando o maior dos astros estava a pino. Era um momento de comunhão e Hansen sempre participava. Se houvesse um momento oportuno para uma conversa, o momento seria aquele.
Alaïs pegou o irmão pela mão e juntos dispararam para fora da tenda.
Ela precisava ouvir mais sobre os valanos.



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