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05 - Afinidade

Foto do escritor: jeffpavanin
jeffpavanin
há 3 dias
12 min de leitura

Johan piscou algumas vezes, incrédulo. Não sabia dizer o que era mais insano: estar em Alto Castelo ou ter uma pessoa em sua mente lhe dizendo que roubariam algo dali. Será que Alvera entendia a gravidade daquela infração? Ele mesmo ainda não conhecia toda a dimensão do que estava vivendo.

Encontrar a caverna em Elëgar deveria responder às dúvidas que carregava desde pequeno, mas acabara lhe trazendo ainda mais problemas. Não queria ter que roubar nada de quem governava aquele lugar. Já havia se envolvido em situações similares, nas quais precisou fazer coisas que realmente não queria para poder se safar de algo ou alguém. Mas roubar da Tríplice? Era tolice.

E pensar que ele era chamado de inconsequente.

"Não", respondeu.

"Mas eu preciso-"

"Eu preciso de tantas coisas."

"Garoto, escute. Você não entendeu-"

"Não entendi mesmo. Por que eu deveria te ajudar a roubar algo da Tríplice? São seres imaculados. Eu estaria roubando de deuses."

"Deuses? Me poupe."

Johan conseguiu sentir o sarcasmo na voz de Alvera. Ele respirou fundo, sentindo que avaliava as circunstâncias pela primeira vez.

"Você deu a entender que conhecia a Tríplice quando me pediu para confiar em você. Agora estou aqui, preso e machucado." Ele apontou para o peito enfaixado. 

Em sua cabeça, ele pensou ouvir Alvera suspirar.

"Johan, me desculpe. Preciso ser mais clara com você."

Ele esperou. Olhou novamente para a espada, escura sob aquele tecido vermelho, como se ela pudesse observá-lo também. É claro que não podia. Era apenas uma espada. Parte de Alvera estava ali, de alguma forma, mas continuava sendo um objeto inanimado. Continuava sobre a cama, tão imóvel quanto qualquer outra espada. Não era como se fosse criar braços e pernas e tirá-lo dali de forma heroica.

"Não era para eu estar nessa caverna", continuou Alvera, mais tranquila. "Não sei por quanto tempo eu dormi. Eu deveria ter encontrado meus amigos em Hannelore antes de vir pra cá."

Antes de vir pra cá. Ele se lembraria dessa frase.

"Já me disse. Sobre Hannelore."

"Certo. Fiquei assustada quando percebi que estava em outro lugar, com outra pessoa, não com Heriandir. Quando você me mostrou o que sabia fazer e me contou sobre os imortais, pensei que seria minha única esperança."

Johan assentiu. Também já sabia dessa parte.

"Você me contou sobre sua infância, os sonhos com a luz na caverna e sua queda. Eu não sei o que significam, juro, eu queria saber. Mas eu sei que tem alguma ligação com o que está acontecendo agora."

Ela estava certa. Só que nada fazia sentido.

"Seus imortais não são quem eu esperava encontrar."

Alvera deixou a frase no ar. Diante do silêncio de Johan, percebeu que ele não compreendia o que queria dizer.

"Quando você chegou neste lugar com Averianora, eu senti a presença de um artefato como ela. Ele pertence a alguém que eu conheço. Mas quando me vi diante daquela mulher, percebi que estava errada. Ela não é alguém que eu conheça."

Ela se referia à Allana, a parte feminina da Tríade. De acordo com a Administradora Lisa, era ela que tinha curado os ferimentos de Johan. Quase de forma inconsciente, ele passou novamente a mão pelo peito enfaixado. Uma imortal o curara.

"Espere", pediu ele. Tentava compreender a situação através da perspectiva de Alvera. "Você não reconheceu Allana. Mas você conhece todos os imortais?"

Por um instante, Alvera permaneceu em silêncio. Johan poderia jurar que ela revirava os olhos, onde quer que estivesse, na caverna ou dentro da espada.

"Não. Eu nem sabia que aqui teriam imortais. A questão é que o artefato que eu estou sentindo pertence a uma grande amiga. Se este artefato está por aqui, pode ser que ela também esteja. E se ela estiver, pode me ajudar a entender. Eu preciso saber."

Finalmente. Johan entendia alguma coisa.

"E você quer a minha ajuda pra isso também."

"Como vê, eu não tenho muita utilidade nesse estado."

Uma espada, imóvel. Se ela não tinha utilidade estando com a consciência dentro da espada, por que então ela possuía essa habilidade? Teria que perguntar em outro momento. Johan começou a perceber que muito daquela história se resolveria apenas com seu próprio esforço e coragem. Se quisesse sair dali e voltar para os Peregrinos, para o seu pai, teria, então, que colaborar com Alvera. Era como ela tinha colocado: Johan era sua esperança. Talvez ela pudesse ser a dele também.

"E como nós vamos fazer isso?", ele perguntou, finalmente.

"Então vai me ajudar a roubá-lo?" Alvera soava aliviada.

"Não podemos simplesmente pedir a eles?"

"Eles não vão me dar o artefato. Eu tentei."

Apesar de estar disposto a tentar compreender a realidade dos fatos, Johan ainda tinha dificuldade em aceitar que, por algum tempo, Alvera havia tomado seu corpo e sua voz para conversar diretamente com a Tríplice.  Em Ghäle, estar na presença da Tríplice era considerado um grande benefício. Como alguém que nem sequer era dali poderia ter vivido uma experiência como essa? E ele, que em corpo havia vivido, não se lembrava de nada. Ele nem ao menos conhecia a fisionomia dos Três.

Já havia passado tempo demais preso àquele cômodo, consumido pelas dúvidas. A ideia de roubar um objeto de Alto Castelo era ao mesmo tempo repugnante e tentadora. Mas ela lhe dava algo que Johan precisava, até ansiava: um propósito. Então era isso que faria. Ajudaria Alvera a recuperar o artefato e, depois, voltaria para casa.

Para os Peregrinos, não para um casebre em Catharsis.

Ele empunhou Averianora novamente, segurando-a ainda embainhada. Sentiu a surpresa de Alvera ecoar em sua mente.

"E o que mais Averianora pode fazer?", ele quis saber.

"Cautela, Johan. Nas mãos erradas, ela pode fazer mais mal do que bem.  Vamos começar cortando a barreira ao seu redor."

Levantou-se da cama e continuou brandindo a espada, com cautela.

"Como eu faço?", perguntou ele.

"De alguma forma, essa barreira foi criada por um artefato. Qualquer outro é capaz de desfazê-la. Apenas corte o espaço à sua frente. Averianora fará o resto."

Com cuidado, ele tirou a espada da bainha. O metal escuro e opaco parecia inofensivo. A empunhadura era confortável, mas Johan não tinha experiência com aquele tipo de arma. Mesmo assim, segurou a espada com as duas mãos e, determinado, cortou o vazio à sua frente.

Johan sentiu o ar se partir.

A força invisível que mais cedo o impedira de se afastar da cama parecia sólida e cedeu ao gume da espada. Conforme ele cortava, a barreira revelou sua superfície translúcida, que se cobriu de milhares de pontos multicoloridos antes de se dissipar completamente, ao fim do corte. Por um lado, Johan sentia-se aliviado em se ver um pouco mais livre. Por outro, estava maravilhado. As habilidades que Hansen lhe ensinara não pareciam em nada com o que acabara de presenciar. Aquilo era muito maior.

Johan começou a imaginar as portas que Averianora poderia abrir, mas seus pensamentos foram interrompidos pela voz de Alvera em sua mente.

"Nem pense. Um minuto com o artefato e você já está sonhando com outros usos para ele. Há pouco, a ideia de roubar não lhe parecia tão convidativa."

Johan fez uma careta, como se tivesse sido pego.

"Como você leu a minha mente?", ele quis saber.

"Nem precisei, deu pra ver na sua cara."

"Mas você nem está aqui. A espada não tem olhos!", retrucou, indignado.

"Desculpe. É verdade. Eu te vejo em minha mente. Averianora possibilita isso."

"Mas a espada está comigo."

"Mas ela contém uma parte da minha consciência, lembra?"

"Mas-"

"Mas, mas…! Chega. Eu gostaria de explicar tudo, Johan. E vou, quando estivermos em circunstâncias mais propícias. Mas, por enquanto, só consigo pensar em resolver o nosso problema. Podemos?"

O nosso problema. Certo.

Um pouco envergonhado, Johan retomou a postura. Então Alvera podia vê-lo. Esperava que não notasse o rubor em seu rosto. Por um instante, sentiu-se novamente um adolescente. Precisava ser mais maduro se quisesse ajudá-la e sair de Alto Castelo com a missão concluída. Indiretamente, Johan sonhara com aquela mulher por muitos anos. Não fazia sentido abandoná-la agora.

"E agora?"

"Primeiro, nós precisamos encontrar o artefato. Eu consigo senti-lo em algum lugar abaixo de nós. Faz sentido?"

Johan refletiu por um instante. Alto Castelo não tinha esse nome por acaso. Era um castelo e estava sempre flutuando alto no céu da cidade. A Tríplice poderia ser considerada imaculada, mas não criativa. Deviam estar em uma das torres. Só tinha um jeito de descobrir. Finalmente livre para andar, Johan aproximou-se da janela e fez o que queria ter feito desde o início: olhou para baixo.

E, caramba... estavam muito alto mesmo.

Ele conseguiu avistar Catharsis lá embaixo, com as ruas cheias de pessoas que, daquela altura, se pareciam com formigas. Mais próximas, outras torres da fortaleza se erguiam ainda mais altas.

"Você sente o… artefato… muito abaixo de nós?"

"Não muito abaixo. Mais como em outro andar do que na cidade propriamente dita. Com certeza ele está bem aqui, com aquela Tríplice."

Ele se afastou da janela e olhou ao redor do cômodo. Suas roupas não estavam à vista. Ainda vestia apenas calças. A comida na mesa já estava fria e a luz dos astros batia com mais força nos móveis luxuosos. Teria que sair dali daquele jeito, descalço e com a espada em mãos. Como se, mais uma vez, tivesse lido seus pensamentos, Alvera fez alguma coisa com a espada. Ela emanou novamente um brilho perolado, como fez lá na caverna. Johan quase a soltou, com medo de que estivesse quente, mas o metal não queimava sua mão. Quando o brilho se dissipou, um cinturão de couro estava preso à bainha.

"Pensei que fosse precisar disso", lançou ela.

Johan ajustou a espada à cintura. Bem melhor.

"Você não consegue conjurar roupas novas para mim?", ele zombou.

"Muito engraçado, mas não funciona assim."

Sorrindo, ele foi até a porta. Estava destrancada. A Administradora Lisa havia dito que ele era um prisioneiro, mas não um prisioneiro comum. Estava em um quarto de hóspedes e não tinha sido atirado nos Calabouços de Catharsis. Johan não achava que isso era algo bom. De qualquer forma, sentiu um alívio ao encontrar a porta destrancada.

Quando saiu para o corredor, foi tomado, mais uma vez, por aquela estranha sensação. Ele não reconhecia o lugar. Seu corpo havia passado por aqueles corredores, mas sua mente não.

"Eu memorizei os caminhos que pude quando conversei com eles ontem", continuou Alvera. "Sinto muito, Johan. Sei que isso tudo é estranho. Acredite, para mim também é."

Ele assentiu em silêncio. Olhou para os dois lados do corredor, à procura de guardas ou de qualquer outra pessoa, mas não havia ninguém. O ambiente era tão sofisticado quanto o quarto de onde saía. Amplo, bem iluminado e com paredes revestidas por painéis de madeira branca, divididos por molduras douradas. Johan sentiu o mármore frio e muito liso sob os pés. Estandartes de tecido vermelho-escuro pendiam ao longo do corredor e exibiam o símbolo da Tríplice: três pilares circundados por um anel, com o central erguendo-se acima dos outros. O símbolo podia ser visto por toda Catharsis e não era novidade para Johan.

O interior do castelo, porém, era. 

Devagar, Johan caminhou até o primeiro cruzamento do corredor. De ambos os lados ele viu a mesma coisa: mais passagens longas, bem iluminadas e vazias. Ele sempre imaginou o lugar bem movimentado, com guardas preparados e serviçais andando de um lado para o outro, deixando tudo organizado para o conforto dos Três. Estranho.

"Não tinha ninguém me vigiando", comentou Johan.

"Só há pessoas no salão principal desse lugar, sete andares abaixo. Vire à esquerda."

Alvera não parecia surpresa.

"Eu não devo ser um prisioneiro muito valioso, então."

Johan sussurrava para a espada.

"Era para você estar realmente preso, Johan. Eu os convenci a deixá-lo solto."

"E como exatamente você fez isso?, indagou.

Alvera demorou alguns instantes para responder.

"Eu ofereci Averianora a eles."

"Você o quê?" Johan quase gritou para a espada. A cena seria hilária se vista por outra pessoa. Ele olhou para o corredor à frente, mas continuava vazio.

"É claro que não vão ficar com o artefato. Mas eu precisava de uma garantia de que você não fosse ficar preso em um local que eu não conheço."

"Então você ofereceu a espada em troca da minha liberdade."

"E do seu conforto. Precisamos de você plenamente recuperado se quisermos sair daqui rápido e com dois artefatos em mãos. Agora vire à direita."

Johan não disse, mas sabia que, de alguma forma, a Tríplice conhecia os artefatos. Do contrário, por que teria aceitado a barganha de Alvera tão facilmente?

"Acham que vão ter Averianora depois que você se recuperar. Provavelmente até o final deste dia. Aquela mulher fez com você algo além da minha compreensão, Johan. Curou parte do ferimento no seu peito com as próprias mãos."

"Ela não deveria ser capaz de fazer isso?", perguntou Johan, tocando o peito enfaixado. "É a Tríplice. Eu disse que eles são considerados deuses."

"Não deveria ser possível sem um artefato."

"Eles têm as Lanças Sagradas."

Johan sentiu que Alvera não estava acompanhando. Das coisas que imaginou estar fazendo naquele momento, ensinar a uma mulher gigante sobre a teocracia de Ghäle — através de uma espada — era a última delas.

"As pessoas dizem que Alto Castelo só flutua por conta do poder que vem delas."

Johan lembrou que a primeira vez que viu Averianora, ainda na caverna, o artefato assumira a forma de uma grande lança prateada. Ele nunca vira uma Lança Sagrada, mas imaginava que fosse muito semelhante àquela. Ninguém sabia como se pareciam, mas era de conhecimento geral que a Tríplice as possuía. Todas as pinturas retratavam as três divindades carregando as armas. Muitos acreditavam, inclusive, que o próprio símbolo da Tríplice as representava. Alvera parecia pensar sobre isso.

"Quando estive com a mulher, não havia nenhuma arma com ela. E eu não senti o poder de outro artefato além desse que estamos procurando."

"Talvez você tenha sentido uma das Lanças Sagradas", insinuou ele.

"Não. Eu sei que não é."

Johan não a questionou. Continuou andando pelos corredores vazios, à espera de uma escada que descesse ao nível anterior.

Encontraram a escadaria após a terceira curva. Era uma grande espiral que contornava toda a parede interna de uma torre larga. Johan se debruçou sobre o corrimão de pedra e olhou para cima, sem conseguir enxergar onde a torre terminava. Entre as muitas aberturas e janelas, avistou pássaros cruzando o enorme vazio central. A visão reforçou ainda mais a monumentalidade de Alto Castelo.

Foi mais fácil identificar o fim da extensão da escadaria quando olhou na direção oposta. Ao longe, sete lances abaixo, Johan avistou uma grande estátua no andar térreo.

Ele começou a descer.

"Sua bússola vai precisar ser mais precisa agora", disse para Alvera.

"Vou te guiar, mas não se esqueça de que eu não sou um objeto."

"Você está dentro de uma espada. Convenhamos, a distinção ficou um pouco confusa."

Alvera suspirou.

"Justo."

Após Johan descer quatro lances da escada, Alvera disparou:

"Consigo sentir o artefato mais perto. Talvez mais um andar abaixo."

Ele já ia descendo quando ouviu um eco ritmado de botas de aço. Dois homens vinham subindo a escadaria sem olhar para cima. Estavam conversando. Guardas. A Alta Guarda era muito conhecida em Catharsis. Desfilava diariamente pela Praça Branca em armaduras reluzentes. De acordo com a Administradora Lisa, alguns deles ajudaram a carregar Johan para dentro do lugar.

Se o vissem ali, o reconheceriam.

"Dê meia volta. Agora!", orientou Alvera, aos sussurros.

Não que precisasse. Johan subiu ao andar anterior e se agachou junto à entrada de um dos corredores, de forma que pudesse observar para onde os homens se dirigiam. 

A corrente de ar era forte naquela torre. Suas capas alvíssimas quase chegavam ao chão, esvoaçando em suas costas conforme andavam. Brilhantes e impecavelmente asseados, transmitiam uma imagem tão imaculada que Johan chegou a pensar que nenhum deles jamais lutara em uma batalha de verdade.

Vinham para o mesmo andar.

A única alternativa era entrar naquele corredor e procurar uma sala onde pudesse se esconder, correndo o risco de encontrar outros guardas ou qualquer outra pessoa. Alvera tinha dito que não havia ninguém ali. Mas como poderia ter certeza?

Johan se afastou da escadaria e foi até a porta do cômodo mais próximo. Estava trancada. Tentou uma segunda porta, mais à frente, também trancada. A terceira também. Algumas maçanetas nem se moviam. Que lugar era aquele? Tão grande e, ao mesmo tempo, tão inóspito. O tilintar das armaduras dos guardas ficou mais alto. Johan viu as armaduras reluzentes surgirem na entrada do corredor.

Os guardas o avistaram a qualquer momento.

Não podia ser pego. Precisava sair dalí, não continuar preso. Se eles continuassem subindo, talvez não notassem Johan. Porém, assim que atingiram o andar em que estava, entraram justamente naquele corredor. Um deles olhou para frente.

Johan desejou estar invisível.

Um brilho perolado inundou sua visão. No instante seguinte, desapareceu.

Algo havia mudado. O tilintar das armaduras da Alta Guarda parecia distante, abafado, ainda que estivessem muito perto. A imagem dos guardas tornara-se difusa, como se uma película translúcida os separasse de Johan. Visualizar a cena sob essa perspectiva o deixou atordoado. Os guardas se aproximaram sem notar Johan nem a espada. Ele prendeu a respiração quando ambos passaram por ele.

Bem na sua frente. 

E eles não o viram.

Alvera estava estranhamente silenciosa.

Johan só conseguiu voltar a respirar um minuto depois, quando os homens da Alta Guarda desapareceram por outro corredor ao longe. No mesmo instante, o ar a sua volta tremeluziu e a nitidez retornou à sua visão.

"O que foi isso?", perguntou à espada.

Alvera estava rindo sozinha.

"Você usou Averianora!", exclamou ela, animada.

"E por que você está rindo?"

"Ninguém além do portador original deveria ser capaz de usar um draemyr."

Draemyr? Era a primeira vez que ela usava a palavra.

"Em uma necessidade urgente, Averianora compartilhou seu poder com você. Por isso os guardas não puderam nos perceber."

"Mas eu usei a espada antes. Cortei a barreira lá, naquele quarto."

Alvera suspirou.

"Naquele momento, a espada só desfez um nó que outro artefato construiu. É natural. Dessa vez, você deliberadamente usou meu draemyr para suprir uma necessidade sua. Eu não achei que isso fosse possível."

Ela parecia alegre.

"Você parece ter gostado disso", comentou Johan.

"Sim", admitiu ela. "Em pouco tempo, você desenvolveu afinidade com um artefato que não foi criado para você. Cada Aemyr tem uma afinidade única com seu draemyr e mais ninguém. Até agora. Isso abre possibilidades que eu nem consigo imaginar, Johan."

Aemyr? Novamente, Johan se sentiu motivado. Tocou a espada com energia renovada. Um objeto de poder desconhecido, que ainda não entendia. 

"Então me conte", pediu.

"Eu vou. Antes, nós precisamos seguir com o plano."

Certo, o plano. Roubar.

Johan olhou para o corredor, agora vazio. Só precisava descer o resto da escada em caracol para atingir o fim da torre. Outro artefato como Averianora estava ali, em Alto Castelo, e Johan também o levaria com ele.

Tinha partido atrás de um sonho, em busca de respostas.

Voltaria para casa com ainda mais perguntas.


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