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06 - Confluência

Foto do escritor: jeffpavanin
jeffpavanin
há 3 dias
14 min de leitura

O canto dos pássaros na Mata da Solidão chegava alto à clareira ao fim da refeição. Os peregrinos do núcleo estavam sentados ao redor da fogueira apagada, conversando sobre trivialidades. Àquela hora do dia, com os astros a pino, nem todos os irmãos de clã se sentavam para comer junto aos seus. Muitos ainda caçavam, pescavam ou se ocupavam com outras atividades. Para Torius, no entanto, todos que precisavam estar presentes naquele momento, já estavam. Ele passou recolhendo as vasilhas dos companheiros conforme terminavam de comer. Quase deixou cair uma colher ao passar ao lado de Alaïs.

Estava aflito.

Parte dessa aflição tinha a ver com o que a irmã lhe contara, com a presença dos valanos na Mata, mas outros pensamentos tomavam conta de sua mente havia mais tempo.

Johan não dava sinal de vida havia semanas.

O irmão de clã partira em mais uma de suas viagens e deixara Torius para trás, mesmo o alado tendo praticamente implorado para acompanhá-lo dessa vez. Johan insistiu que precisava ir sozinho e Torius respeitou essa decisão. Partiu em busca de se livrar de tudo aquilo que o afligia. Aqueles sonhos. Luzes esquisitas, montanhas escuras e uma caverna iluminada… Elementos que faziam com que o amigo acordasse no meio da noite, arfando, todas as vezes. Para Torius, era sempre custoso observar o sofrimento de Johan sem poder fazer nada. Teria de esperar mais um pouco, até Hansen decidir se iriam atrás dele ou não.

Estava tentando deixar Johan fora de seus pensamentos.

E ele queria ouvir mais sobre os valanos. Queria saber o que Meredit tinha a dizer sobre aquele encontro na Mata, o que poderia significar. Percebeu que a irmã sentia o mesmo. Alaïs se balançava, ansiosa, sentada de pernas cruzadas sobre um amontoado de tecidos. O terreno daquela clareira era agradável, praticamente todo nivelado, ideal para um acampamento. Quase nunca faziam as refeições no mesmo lugar, mesmo quando permaneciam na floresta por dias. Torius preferia acreditar que Hansen havia escolhido propositalmente aquele ponto, mais afastado da tenda principal, onde seria difícil para os outros ouvi-los. Não porque os peregrinos mantivessem segredos uns dos outros, mas para evitar burburinhos.

Torius reuniu os utensílios usados em um baú. Mais tarde, os levaria até um afluente do Katiri para lavá-los. Por ora, voltou a se sentar ao lado de Alaïs, à espera da fala do sacerdote branco. Hansen estava como sempre estivera: sereno, agradável e bastante calmo. Usava a camisa um pouco aberta para aproveitar a brisa fresca da Mata, como Torius bem sabia. O clima atual das Terras Vãs podia ser desafiador. Torius também sabia que a qualquer momento ele iniciaria o assunto que findaria toda a conversa fiada daquela roda.

Meredit compartilhava o assento com Hansen. Um largo tronco caído servia-lhes de banco, fazendo com que ambos ficassem um pouco mais altos que os demais. Além dos mestres, de Torius e Alaïs, outros três peregrinos faziam aquela refeição com o grupo: Juran, um garoto órfão acolhido pelos Peregrinos após uma visita a Kohar, e os mais velhos Fassar e Muriel. O casal praticamente adotara Juran desde sua chegada. O garoto fazia a refeição silenciosamente, aos pés dos pais. Quase nunca falava e não parecia nutrir muito interesse pelas questões que moviam o grupo. Torius o observou brincar com um pouco da comida na vasilha. Com um movimento equivocado, o naco de peixe que deveria ser comido caiu na terra úmida e, antes que o garoto o levasse à boca, Fassar o impediu. Tinha entre seis e oito anos, ninguém sabia dizer, mas já tinha vivido demais para uma criança. Torius pensava na própria infância quando Hansen finalmente iniciou o assunto pelo qual todos esperavam.

"Meredit me contou o que vocês viram hoje", disse ele, se dirigindo à Alaïs.

Ela imediatamente endireitou as costas, alarmada. Olhou para Torius, como se esperasse que ele lhe dissesse o que fazer em seguida. Bastou um aceno do irmão para que continuasse o diálogo.

"Sim, mestre", respondeu ela. "Foi… incrível."

Hansen assentiu.

"Eu imagino, criança."

Hansen falava como se conhecesse tudo e todos. Torius sentia que o sacerdote era como um ser ancestral, como se tivesse visto tudo o que era possível ver do mundo. Por isso, quando os chamava de crianças, não soava condescendente, mas sim como se ele fosse realmente alguém muito mais velho. Torius não conhecia nenhum outro sacerdote de Rök, mas imaginava que todos fossem como Hansen, e isso também o fazia indagar que tipo de saberes eles ensinavam naquelas fortalezas. 

"O que você sentiu naquele momento, Alaïs?", perguntou Meredit.

A postura direta da matriarca fez Torius estremecer.

Depois de um minuto de contemplação, a alada respondeu:

"Eu me senti em paz, senhora. Acho que essa é a melhor definição."

Meredit assentiu, sorrindo, satisfeita. 

"É muito comum ouvir relatos de pessoas que dizem ter avistado os valanos em diversas partes desta terra", continuou Hansen, gesticulando para os arredores, "mas é sempre importante saber qual é a resposta à pergunta que Meredit te fez. Todos os que conheço que já se encontraram com os habitantes da Vala relatam a mesma sensação: tranquilidade, leveza. Paz. Os que dizem o contrário, que se assustaram ou que foram atacados, dificilmente estão dizendo a verdade sobre tê-los encontrado."

Torius sempre imaginara que, se um dia viesse a se encontrar com um valano de verdade, descobrir que eram reais, também se assustaria. Os relatos sobre usarem máscaras eram uma constante, mas diferiam em teor: alguns diziam que eram assustadoras, feitas para causar mal estar, outros que eram coloridas, até risonhas. Poucos sabiam da verdade, claro. De acordo com o breve relato da irmã, as máscaras eram esquisitas, mas não lhe causaram uma sensação ruim. O fato de transmitirem bons sentimentos parecia ser algo importante.

O sacerdote continuou:

"Eu mesmo os encontrei apenas uma vez. Foi quando descobri que são reais. Isso faz muito tempo." Ele parecia refletir. "Também senti a mesma coisa."

O silêncio tomou conta do lugar por um momento. Todos esperavam por mais, Torius percebeu. Alaïs continuava em seu assento improvisado de tecidos sobre a relva, atenta ao que o homem falava. Até Juran parecia um pouco interessado. Havia desistido da brincadeira com os talheres e se aninhara nas saias da mãe.

"Foi pouco depois de eu sair de Rök", continuou. "Muito antes da chegada do segundo astro. Estava em Manta Salel, viajando devagar para Calmaria, planejando embarcar em um navio até Catharsis. Como vocês sabem, naquela época ainda não existiam os Peregrinos. Estava sozinho, parei em um rio para beber água e abastecer meu cantil. Era bem cedo, fazia frio e uma neblina densa cobria o rio. A primeira coisa que chamou minha atenção foi o silêncio."

Torius trocou olhares com Alaïs. Era exatamente a mesma descrição que ela fizera do encontro.

A presença do silêncio.

"Nenhum canto, sibilo, coaxar, nada. Notei um movimento na margem oposta, mas pensei que talvez fosse apenas um animal daquela floresta e não me importei. O silêncio era tão convidativo que me permiti deitar na relva e descansar. O único som que ouvi foi o farfalhar dos passos de alguém na floresta. Foi quando avistei uma pessoa alta, vestida em um manto de flores e mascarada. Como você viu hoje. Havia parado a poucos metros de mim e parecia me encarar. Eu sei que a visão deveria ter me causado assombro, me assustado, mas não foi o que aconteceu."

O conto de Hansen se fazia vívido na mente de Torius, que imaginava tudo com clareza, como se ele mesmo tivesse vivenciado. E ele desejava ter vivenciado.

"Nada me preparou para aquele momento", afirmou o sacerdote. "Em todos os anos que estive em Rök, não ouvi falar sobre a Vala ou seus habitantes. Sempre foram considerados lendas, e lendas que só são contadas aqui, nas Terras Vãs, muitas vezes apenas para assustar crianças. Quando se pensa ver algo desse tipo, o comportamento mais esperado é que todos saiam gritando de terror. Não é o caso com os valanos. As reações são sempre as mesmas."

"Comentei com Alaïs mais cedo que também já tive contato com os valanos", comentou Meredit, olhando para o sacerdote. "E a sensação, claro, foi a mesma."

Hansen assentiu, concordando. 

"Pois bem. Temos aqui reunidas três pessoas que já avistaram ao menos um valano em algum momento da própria vida. Isso é raríssimo. O fato de os três pertencerem aos Peregrinos me intriga muito."

Aqueles comentários do sacerdote atingiram Torius com uma força inesperada. Estava vivenciando momentos sem precedentes na história de Daeva. Primeiro, a chegada do segundo astro, alguns anos antes. Sua presença havia marcado o mundo de formas inimagináveis, fazendo com que o clima naturalmente quente ficasse ainda mais intenso e seco, causando queimadas em campos abertos que atingiam cada vez mais vilarejos sem muralhas, como Lima. E ele não sabia como lidavam com isso em Ghäle ou em outras cidades maiores. Os estragos poderiam ser piores. Em seguida, os avistamentos dos valanos.

"O que exatamente são os valanos?", perguntou Torius.

Hansen olhou para o alado.

"Precisamente a pergunta que eu sempre me fiz. São seres humanos como nós? São alados ou não? O que há debaixo daqueles mantos e máscaras? Porque vivem em reclusão? Se a Vala realmente existe, qual é o seu tamanho real? Nós não sabemos nada."

Decepcionante, pensou Torius. Se Hansen não tinha as respostas para aquelas perguntas, então ninguém teria.

"Eu gostaria de ter as respostas, acredite", comentou Hansen. Ainda olhava para Torius, que não sabia dizer se o sacerdote havia lido sua mente ou apenas seguido seu raciocínio. "Mas não é algo que eu quero deixar morrer. Têm se falado cada vez mais sobre os valanos para que isso seja esquecido."

O sacerdote olhou para Meredit. A matriarca assentiu.

"Há algum tempo tenho pensado que devo discutir algumas coisas com o grupo", começou Hansen. "Desde que Johan partiu, pra ser mais específico."

Todos se endireitaram, com atenção redobrada. Ao ouvir o nome de Johan, Torius sentiu o peito arder.

"Penso que o avistamento dos dois valanos aqui na Mata, enquanto estamos todos presentes, pode significar duas coisas", continuou. "Estamos estacionados aqui há muito tempo e sei que alguns irmãos começaram a questionar. Podemos não ser mais bem-vindos na Mata. Essa é a primeira hipótese. A segunda, que eu acho mais provável ser a verdadeira, é a de que os valanos querem nos dizer alguma coisa. Penso que essa é a verdade apenas pelo motivo que já mencionei antes. Três pessoas somente aqui nesse pequeno grupo tiveram contato com eles. Eu, Meredit e Alaïs. Procuro pensar que, devido à sua natureza reclusa e peculiar, os valanos só são observados se quiserem."

Torius novamente se lembrou da história de Alaïs. Meredit tinha dito a mesma coisa para a sua irmã, sobre a intencionalidade dos valanos. Pensando bem, era de se supor que Meredit e Hansen já tivessem tido essa conversa inúmeras vezes.

"Apesar de ainda não sabermos nada sobre a real intenção dos valanos com essas aparições, penso que podem estar relacionadas com o surgimento do segundo astro."

A reação de Alaïs chamou a atenção de Torius. A alada arquejou, e ele achou que isso traduzia bem o sentimento do grupo todo. Era surreal pensar que o surgimento de um corpo celeste estranho no céu de Daeva tivesse relação com a descoberta de que monstros de histórias assustadoras eram reais. 

"O que dizem sobre o segundo astro nas cidades, mestre?", perguntou Fassar, falando pela primeira vez após o término da refeição.

Hansen pareceu pesar as palavras antes de responder.

"Os cosmologistas de Rök estão estudando o astro como podem. São os principais responsáveis pela nomenclatura que usamos atualmente. Somado ao primeiro, esse astro tem trazido enormes prejuízos para a população de Ala, principalmente. A seca afetou os sistemas agrícolas de muitos povoados, trazendo escassez de alimento. Algumas espécies de animais precisaram migrar para regiões mais adequadas e frescas. É possível que algumas entrem em extinção nos próximos anos."

Torius havia ouvido falar sobre aquilo. Ele mesmo avistara grandes manadas de elandes viajando pela região ao norte da Mata no ano anterior.

"Como vocês já sabem, os príncipes de Gahari fazem o que podem para acolher aqueles que precisam de abrigo, mas a cidade também sofre com a escassez", completou.

Meredit sorriu com a menção aos filhos.

"As guildas de Kohar, em especial os Alarmantes, acreditam que a chegada do segundo astro prenuncia uma catástrofe. É interessante pensar que membros de guildas como essa saíram em busca de abrigo em regiões mais altas, como os Picos Desalmados. E outros, mais corajosos e em menor número, procuram entradas para a Vala."

Torius seguia o raciocínio conforme o sacerdote falava. Ele não sabia que havia pessoas propositalmente buscando pela Vala. A presença dos valanos na Mata já poderia ser explicada apenas por esse fato. Ninguém gostaria de ter a própria casa invadida por estranhos. Se sua antiga casa em Alfeyn fosse invadida, certamente também agiria para protegê-la. Ele olhou para Alaïs quando pensou na possibilidade. Ela brincava com Juran, mas mantinha quase toda a atenção na conversa.

"E em Ghäle?", perguntou Fassar novamente.

"Nas terras do outro lado do Mar Imortal, até onde se sabe, lidam muito melhor com essa realidade. Ghäle tem um ecossistema mais fresco e suas regiões são muito mais arborizadas, então o calor se intensificou menos. Os viajantes e as cartas que recebemos daqueles lados mostram que pouca atenção é dada a essa questão na capital. Catharsis parece ter suas próprias preocupações. Se for verdade, o grande prisioneiro que aparentemente fugiu dos Calabouços deve estar tomando todo o tempo da Tríplice no momento. Os eruditos do Alto Colégio de Catharsis certamente também realizam seus estudos, mas nada foi oficialmente divulgado sobre isso. Ou saberíamos."

"Então todo o conhecimento que temos sobre o segundo astro ainda é muito rudimentar." Foi a vez de Muriel falar. A idosa passava a mão pela longa trança que usava sobre os ombros, expressando sua apreensão. "Seguimos à mercê de um fenômeno que não entendemos."

"Precisamente", concordou o sacerdote. "E, além disso, outra questão também me preocupa. Não sei se estão relacionadas, mas são coincidências demais para considerar o contrário."

Torius achava que sabia sobre o que o sacerdote falaria a seguir. Johan.

"Semanas atrás, meu filho decidiu partir em uma viagem. Mais uma vez. Quase todos os peregrinos sabem que desde que Johan se tornou adulto, passa mais tempo vagando pelo mundo do que em nossa companhia. Alguns atribuem isso a uma espécie de rebeldia, mas há outra razão para sua ausência."

Então Hansen ia contar a eles sobre os sonhos. Ele não precisava, mas se houvesse alguma ligação entre aqueles fatos, Torius gostaria de saber. Viu o sacerdote passar a mão no rosto, expressando uma preocupação que nunca antes vira no homem.

"Quando criança, Johan perdeu tudo em um incêndio em Catharsis. Teria também perdido a própria vida se tivesse ficado mais tempo naquele casebre em chamas."

"Graças a você, ele não ficou", completou Torius. Ele conhecia a história de cor. Apesar de Johan dizer que não tinha lembranças da infância antes do incêndio, sempre contava como havia conhecido Hansen. Ele seria grato ao homem pelo resto da vida.

Torius também.

Ao ouvir o alado, o sacerdote assentiu.

"Escutei o menino gritando pelos pais e agi sem pensar. Muita gente olhava para o desastre sem fazer nada. O fogo já havia destruído quase tudo. Foi terrível."

"Como conseguiu evitar o fogo, mestre?", perguntou Fassar.

O interesse repentino do peregrino fez Hansen sorrir.

"De uma forma que só se aprende em Rök, meu amigo."

A resposta pareceu bastar para o homem, que também sorriu.

"Johan não tinha para onde ir e me seguiu por três dias na capital", continuou. "Foi quando decidi levá-lo comigo até onde eu pudesse. Nos dias que se seguiram, aprendi seu nome, dei-lhe o que comer e onde dormir e, assim, o pequeno se apegou a mim."

Sentado no chão enquanto ouvia, Torius ponderava a dimensão de todo o sofrimento do amigo na infância. Privado dos pais e de um lar acolhedor, passando a viver com um estranho, vagando pelo mundo. O alado imaginava quanto tempo Johan levou para  elaborar toda aquela mudança em sua vida, sendo tão novo.

Antes de continuar sua história, o sacerdote dobrou as mangas da camisa que usava, em uma tentativa de diminuir o calor que os castigava àquela hora do dia.

"Vivemos bem por três ou quatro anos em nossa antiga casa nos arredores de Telmar. Johan se adaptou facilmente à vida no campo, cuidava do rebanho e das plantações. Nunca reclamava. Gostava quando via a casa cheia das pessoas da cidade, que buscavam meus serviços. Mas uma coisa começou a chamar a minha atenção depois desse período. O garoto passou a me acordar quase todas as madrugadas, com medo de algo que não sabia nomear. Devia ter por volta de nove ou dez anos. Só um pouco mais velho, ele aprendeu a diferenciar todas as imagens que lhe apareciam em sonhos."

A paisagem escura. A montanha iluminada. A queda. Tudo misturado às imagens borradas do incêndio. Torius tentava visualizar cada elemento conforme Hansen os enumerava para o grupo de peregrinos.

"Assim como as lembranças do acidente, Johan acreditava - e ainda acredita- que as outras imagens também eram reais. Sempre conversávamos sobre isso e, depois de muita discussão, chegamos à conclusão de que, se não eram memórias, então talvez fossem visões."

Todos do grupo reagiram com surpresa, assim como Torius havia reagido quando Johan lhe contou, cerca de um ano antes. Todos os peregrinos conheciam as peculiaridades de Hansen, principalmente sua habilidade em prever acontecimentos. Mas não imaginavam que outras pessoas também pudessem fazer o mesmo. A possibilidade não lhes parecia completamente absurda, já que alguns peregrinos eram capazes de aprender algumas habilidades, como a desmaterialização.

As visões, junto da sensação de que precisava buscar alguma coisa, tomaram conta de toda a juventude do amigo. Assim, quando sentiu que já era maduro o suficiente para se virar sozinho no mundo, partiu em sua busca.

Hansen suspirou. A história parecia tê-lo cansado.

"Estou velho e me sinto cansado", admitiu o sacerdote. "Mas ainda confio no que aprendi. Há alguns anos, sinto que alguma coisa está para mudar. Não acho que essa confluência de acontecimentos seja mera coincidência. Se nessa viagem Johan finalmente encontrar algo…"

"Corremos algum perigo, mestre?", perguntou Alaïs.

"Não sei, pequena. Eu espero que não."

"Já era pra ele ter voltado", afirmou Torius. "Não vamos procurá-lo?"

"Eu queria conversar sobre isso também. Há algo que quero que vocês façam", disse, apontando para os irmãos. "É algo que faríamos com mais calma, mas os acontecimentos de hoje anteciparam essa decisão."

"Faremos o que for preciso, senhor", respondeu o alado, olhando para a irmã, que assentiu.

"Quero que voltem a Gahari e visitem o Cartulário. Busquem qualquer referência aos valanos ou a algo que remeta a eles. Procurem também relatos de acontecimentos semelhantes ao que você viu hoje, Alaïs. Quando possível, anotem as informações, o ano e o nome de quem as relatou ou vivenciou."

Torius memorizou as orientações e também assentiu.

"Quando trouxerem o que reunirem, poderão partir em busca de Johan."

Mais uma vez, o alado sentiu o peito arder. Finalmente poderia fazer mais do que esperar por notícias do amigo.

"Para facilitar a tarefa em Gahari, mandarei outros três alados das pontas com vocês. Procurar por arquivos empoeirados e cobertos de areia pode ser uma tarefa tediosa e árdua. Partam amanhã à primeira luz. Por hoje, descansem."

Com isso, a conversa principal chegou ao fim. Aos poucos voltaram a falar sobre trivialidades, o clima e as condições da Mata. Torius pegou balde de utensílios e foi até o riacho lavá-los.

Ainda pensava em Johan.


Mais tarde naquele dia, quando a luz dos astros já não era suficiente para iluminá-los na Mata, Alaïs voltou à tenda que dividia com o irmão. Ele estava deitado na cama de folhas com a cabeça apoiada em um braço e olhava para cima, pensativo. Ela sentou-se na própria cama, ao lado da dele, e ficou observando-o até que ele notasse sua presença. Estava mesmo distraído.

"Nossa, eu fui longe agora", disse ele, finalmente.

"Percebi. Se eu não te conhecesse bem, diria que estava pensando em outra coisa, e não em Johan."

Ele sorriu.

"Sou tão previsível assim?"

"Depois daquela conversa? Com certeza."

"Eu estava mesmo", admitiu ele. Sentou-se na cama, de frente para a irmã. "Você sabe como ele é desastrado. Já se meteu em tanto buraco. Eu sinto que preciso estar por perto para ajudá-lo a evitar as piores decisões."

Alaïs riu, concordando. Johan se metia fácil demais em enrascadas.

"Ele sabe se virar. Mas fico feliz que vamos procurá-lo.

O sorriso de Torius minguou e ele olhou para ela com uma expressão triste.

"Eu quero ir sozinho, Alaïs", anunciou. "Antes que fale qualquer coisa, sei que você gostaria de conhecer mais do mundo."

Ela permaneceu calada, esperando que ele continuasse.

"Hansen disse que algo está para mudar. Não sabemos com o que estamos lidando. Pode ser perigoso, Alaïs."

"Mas se eu for, vou estar com você", tentou ela.

"Eu sei. Posso soar egoísta dizendo isso, mas vou ficar mais tranquilo nessa viagem se eu souber que você está aqui, em segurança."

Ela ponderou o que o irmão dissera. O mundo podia ser um lugar perigoso mesmo sem eventos celestes desconhecidos. Com o segundo astro no céu, tinha se tornado insustentável para alguns. Ela tinha certeza de que viajar com Torius seria incrível, mas também não se importava em seguir com os Peregrinos, aprendendo mais com Meredit e vivendo a vida da forma que havia escolhido.

"Tudo bem", concordou. "Mas você precisa arrumar um jeito de mandar notícias."

"É claro. Vou escrever sempre."

"Acho bom."

Eles se abraçaram.

"Antes temos que enfrentar o Cartulário".

Apesar da natureza da tarefa, Alaïs sentia que iria gostar de passar um tempo entre os livros, desbravando a história do mundo. Sonhava em conhecer o lugar desde sua primeira visita à cidade.

"Sim", concordou ele. "Amanhã vou pedir permissão a Hansen para partir direto de Gahari. Você volta com os alados ao acampamento?"

"Sem problemas."

Em seguida, ambos iniciaram os preparativos para a viagem.

O dia seguinte seria longo.


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