06 - O cubo prateado
- jeffpavanin

- 11 de dez. de 2025
- 10 min de leitura
Atualizado: 12 de dez. de 2025
O dia já estava clareando quando Alissa fechou a porta traseira da van com um estrondo. Ela tentava se convencer de que não estava nervosa, mas o baque das placas de metal e borracha lhe dizia o contrário. Na noite anterior, quando saiu com Patt do estacionamento dos fundos da Helicon, não imaginava que a madrugada seria tão estressante. Agora, voltando para o campus, seus nervos gritavam como nunca. Por que Patt estava demorando tanto? Ela encostou na lateral da van e esperou. Passou os dedos pelos longos cabelos negros, na tentativa de conter a leve dor de cabeça que começa a despontar, em vão. Em retrospectiva, Alissa não conseguia não pensar no rumo que sua vida havia tomado nos últimos meses. De uma aluna exemplar à uma veterana cansada, esse era o saldo de todo o trabalho realizado. E pensar que havia acabado de adicionar ladra em seu currículo.
Interrompendo seus devaneios, ela viu Patt sair da van e fechar a porta atrás de si e, diferente da sua um pouco antes, aquela porta não fez baque algum. Ele estava tranquilo, com certeza. Aquilo fazia parte de seu trabalho, roubar. Estava acostumado. Ele tirou um saco preto do veículo e o colocou debaixo do braço.
"Acho que peguei tudo".
Sem dizer mais nada, pegou na mão de Alissa e, juntos, caminharam em direção à Helicon. Aquela hora da manhã, o estacionamento dos professores e funcionários já estava abarrotado de veículos. Era o segundo dia do novo ano letivo e Alissa achava que estaria mais feliz assistindo suas aulas, mas no último ano isso tinha mudado drasticamente. O pior, ela pediu por isso. Quando Patt lhe contou o que ele fazia em suas horas vagas a serviço do Sr. Moretti - depois de ela muito insistir -, uma centelha de emoção e instinto aventureiro tomou conta de Alissa sem que ela percebesse. Ela também queria sentir essa emoção. Por mais que amasse a sua vida na universidade, ela sempre quis mais. Agora, ela colhe os frutos dessa decisão. Estava ansiosa? Sim, e bastante preocupada, mas no fundo se sentia satisfeita.
Patt era o amor de sua vida e a protegeria. Ao menos ela achava que sim.
Juntos eles entraram no prédio principal da Hélicon e caminharam sem delongas ao dormitório que dividiam. Alissa esperou ver muitos estudantes tomando conta dos corredores, mas as aulas já deveriam estar acontecendo, pois poucos circulavam por ali. Passou pela Clareira, àquela hora também vazia, e uma lembrança a atingiu: a inocente Alissa do primeiro ano, sentada ali com seus mais novos amigos. Céus, porque eu sou assim, tão saudosista?, pensou a garota. Estava no terceiro ano, mas a sensação era de que já tinha vivido uma vida toda na universidade. Seus dois primeiros anos foram o suficiente para transformá-la em uma garota mais madura. Ela sentia isso, sentia que havia amadurecido muito mais nesses anos que em todo o resto de sua vida. Antes de entrar na universidade, tinha a concepção de que era uma garota comum com sonhos e desejos, ainda não tinha conhecido a real natureza humana. Agora, ela conhecia. Tinha visto a morte de perto. Sabia de tudo o que uma pessoa é capaz de fazer para conseguir o que quer.
E ela odiava isso.
Era parte do que a motivava a continuar. Estresse e preocupação já faziam parte da nova rotina e ela tinha que aprender a lidar com isso. Patt funcionava como um pilar de segurança. Tentava absorver toda a calma e disciplina do quartanista sempre que estava ao seu lado, mas às vezes ela era péssima nessa tarefa. Não queria ter os nervos tão à flor da pele. Mas era assim, ossos do ofício. Ela sabia que seria assim. Ficou mais aliviada quando entrou no dormitório e se sentou na cama. Patt colocou o saco preto ao seu lado e foi direto para o banheiro. Em algum momento desde que ele começou aquela vida de buscador, Patt adquiriu o ritual de sempre tomar um banho depois de cada ação. Precisava liberar suas tensões - que ele escondia muito bem - enquanto a água renovava toda sua energia. Fazia sentido e Alissa não questionava. Ela olhou para o embrulho ao seu lado e a curiosidade substituiu todo o nervosismo. Tinham roubado aquilo e ela se sentia ansiosa para saber se todo o esforço valeria a pena. Sem mais demora, Alissa retirou do saco a pequena maleta e a abriu, sem esperar pelo namorado.
Contido na maleta, o cubo prateado parecia inofensivo. Sabia que deveria tomar o máximo de cuidado com aquele artefato, pois, se ele realmente fosse a peça chave que estavam procurando, continha um poder inimaginável. Delicadamente, Alissa retirou o cubo do interior revestido da maleta e o segurou com os dedos. O objeto cabia na palma de sua mão e era mais leve do que ela esperaria de uma peça maciça de metal. Os relatos diziam que era feito de um material desconhecido, mas brilhava e refletia a luz do cômodo como prata. Alissa levou o cubo mais para próximo de seu rosto e, em uma observação mais minuciosa, percebeu que o reflexo da luz formava uma camada multicolorida em todas as faces do cubo. É mesmo um artefato de outro mundo, constatou. Queria abri-lo para ver o que tinha dentro, mas o cubo não tinha fechos e dobradiças visíveis que indicassem que fosse alguma espécie de caixa misteriosa. Levantando-se da cama, ela colocou o cubo na mesa de frente a sua cama e esperou por Patt.
O namorado não demorou muito para voltar do banheiro. Tinha vestido uma calça e usava uma toalha para secar os cabelos loiros curtos. Água ainda escorria sobre o peito nu e por um longo momento Alissa não conseguiu desviar os olhos. Nessas horas, ele sempre a lembrava dos principais motivos que a tinham feito se apaixonar. O garoto parecia saído de um filme. Era alto, de porte atlético, muito bonito e extremamente carismático. Tinha atraído a atenção de Alissa quando estavam na fila do refeitório, há um ano e meio, mas tomou completamente conta de seu ser quando a chamou para sair, uma semana depois. Tinham ido a uma cafeteria na vila que ficava há alguns minutos da universidade de carro. Na época ele ainda não usava a van emprestada, tinha um automóvel próprio, modelo do ano, que abandonou quando começou a trabalhar com Hector Moretti. Alissa também soube disso quando Patt lhe contou toda a verdade. O garoto jogou a toalha na cama - hábito que ela não suportava - e se encolheu ao lado dela para também observar o cubo prateado na superfície da mesa.
"Não parece muito assustador", disse, apontando para o objeto.
Alissa concordou.
"Se Hector estiver certo, o cubo vai resolver nosso problema e isso basta", respondeu.
Alissa tentou não parecer muito nervosa ao lado de Patt. Achava que poderia irritá-lo, mesmo sabendo que esse era um feito difícil. O garoto era pura calmaria e ela estava se dedicando a emular o mesmo sentimento a todo custo.
"O próximo passo é descobrir como ele funciona", continuou ele. "Você tem alguma ideia de onde começar?".
Claro que ela não fazia ideia. Mas Alissa obteve sucesso com outros objetos antes. A facilidade dela em descobrir a funcionalidade dos draemyr no ano anterior surpreendeu a ambos em níveis que ela não esperava. Ela sabia como sentir o poder que quase sempre emanava desses objetos e isso a ajudava a conhecê-los. Sua habilidade chamou atenção do Sr. Moretti, fato que ajudou a amenizar o terror que ele sentiu quando soube que Patt tinha contado a ela sobre o Universalis sem o seu consentimento. Quando percebeu que Alissa tinha um dom no manuseio dos objetos, decidiu que ela seria uma peça importante para o trabalho do grupo e o que antes era uma dupla se tornou um trio. Trabalharam alguns meses no estudo dos objetos antes de Hector desaparecer. O professor dizia que sem Ernesto Conti e os outros era difícil continuar trabalhando no objetivo original da Universalis. E agora, sem Hector também, era quase impossível. Patt tinha lhe dito que o grupo oficial se dissolveu com a morte de seu idealizador, o professor Conti, há treze anos. Nos dias atuais, Hector era o único membro original na ativa e agia sozinho, tentando retomar o trabalho do grupo. Agora, precisavam agir sem o professor e Alissa se sentia um tanto pressionada. Os dois não tinham a quem recorrer e não sabiam quem tinham sido os outros membros.
Não sabiam nem quantos ainda estavam vivos.
Alissa não respondeu a pergunta de Patt, mas pegou o cubo na mão novamente. Dessa vez, além de observar seu aspecto físico, tentou colocar em prática a habilidade que a consolidou nesse trabalho. Fechou os olhos e procurou sentir se o objeto emanava alguma energia, como os draemyr. Ela procurava qualquer indício que fizesse seu corpo responder de forma atípica, um calor, um calafrio, uma vibração, qualquer sensação que lhe parecesse fora do comum. Nessa análise, ela percebeu que a superfície do cubo era muito fria, talvez mais fria do que um metal comum seria, o que era esperado, considerando que o cubo tinha origens desconhecidas e poderia reagir de formas diferentes às leis da física. Conforme ela vasculhava seu próprio corpo em busca da sensação atípica, Alissa percebeu que o cubo ia se tornando cada vez mais frio. De olhos fechados, ela poderia jurar que estava segurando um grande cubo de gelo. Seus dedos também estavam frios e ela pensou que se a temperatura do objeto continuasse a cair, poderia não mais suportar o toque.
É isso, pensou. Essa é a sensação.
"Alissa, veja".
O som da voz de Patt a fez abrir os olhos antes que ela compreendesse seu comando. O cubo começou a emitir um vapor perolado através de suas arestas. Além disso, irradiava luz, como se estivesse superaquecido, mas sob o toque de Alissa ele ainda estava muito gelado. Ela pensou que já não podia mais suportar a temperatura e tentou colocar o cubo na mesa novamente, mas o objeto se recusou. Parecia ter se fixado na palma de sua mão. Assustada, Alissa balançou o objeto para que ele caísse na mesa e só assim ele se desprendeu de seus dedos, mas não caiu imediatamente na madeira. Ele flutuou. Durou apenas alguns segundos, mas ele permaneceu suspenso no ar, girando levemente, antes de cair de vez na mesa. Foi como se algo se desligasse em seu interior, e ele voltou a ser o cubo de antes, prateado e opaco.
"Eu não tinha dúvidas de que você conseguiria", disse Patt, lhe dando um beijo. Ele estava alegre.
Ela já não tinha tanta certeza de ter conseguido algo. Não sabia o que tinha acabado de acontecer. Diferente dos objetos anteriores, o cubo não tinha revelado uma função clara. Alissa sentia-se bem por ele ter reagido, de qualquer forma.
"Mas isso não serviu pra nada".
"Meu amor, é um ótimo começo.
Alissa bufou, frustrada. Aparentemente, o cubo era essencial para que eles descobrissem o paradeiro do Sr. Moretti. Eles acreditavam que o professor estava vivo, em algum lugar. Duas semanas antes, durante as férias universitárias, Patt havia recebido em seu apartamento uma carta assinada pelo Sr. Moretti, com um relato breve e instruções específicas de como e onde encontrar o cubo. Ele dizia na carta que estava se sentindo em perigo. Ele dizia também que aquele cubo poderia ajudá-los caso ele desaparecesse por mais de três semanas. A essa altura, Hector já estava desaparecido há pelo menos dois meses. Patt não hesitou em dar a carta como verdadeira, pois tinha sido escrita e assinada de próprio punho, na caligrafia do professor. Patt a reconheceu facilmente. Não questionaram, na época, a origem da carta, o porquê de a terem recebido apenas nas férias ou quem a tinha entregado. No envelope não havia selos, remetente ou destinatário. E, para piorar, a carta não revelou nada sobre a funcionalidade do cubo ou como eles deveriam usá-lo. Alissa achava que Hector também não sabia, pois muito do que moveu o trabalho deles nos últimos anos foram histórias e rumores. Depois de duas semanas de preparo para o roubo e de terem finalmente o objeto em mãos, ela esperava mais. Ela sabia da importância do Sr. Moretti para Patt e ela própria tinha se afeiçoado ao professor. Era isso tudo que frustrava Alissa.
Hector Moretti ainda estava desaparecido e o cubo era um beco sem saída.
Durante boa parte da manhã, Patt dedicou atenção integral à Alissa, notando sua frustração. O desânimo do namorado também não passou despercebido, mas Alissa sabia que a culpa não era sua. Esses objetos tão misteriosos que estudavam não tinham origem conhecida e ela não era, nem de longe, a pessoa mais indicada para lidar com eles. Essa pessoa, infelizmente, havia morrido há treze anos. Ernesto Conti tinha idealizado a Universalis e reunido um grupo único de pessoas para buscá-los e, além de tudo, mantê-los protegidos do mau uso. O que Patt e Alissa, sozinhos, poderiam fazer? Era realmente frustrante. Precisavam encontrar o Sr. Moretti.
Em determinado momento, Alissa levou o cubo até um dos armários do dormitório. A pedido de Hector, mantinham esse armário sempre trancado. Ele continha os artefatos que Patt havia roubado ou encontrado durante suas buscas, além dos que já estavam em posse do professor Moretti desde a dissolução da Universalis. Ela sabia que o local mais indicado para contê-los era o gabinete de Ernesto Conti, que tinha sido planejado exclusivamente para essa função. O antigo acadêmico era o principal guardião dos objetos misteriosos e sabia mais sobre eles que qualquer outra pessoa. Mas o gabinete estava lacrado e intocado desde sua morte. Ninguém tinha acesso, ninguém sabia onde estava a chave e Hector se recusava a arrombar. Ao abrir o armário, Alissa depositou o cubo junto das outras peças e instrumentos que colecionavam. Lado a lado e sem uso, eles pareciam velhas bugigangas. O cubo, até então, era o que possuía o aspecto mais alienígena de todos, pois a maioria se parecia com objetos de uso comum, como uma ampulheta, uma caneta ou pequenas tábuas antigas com inscrições em outras línguas.
Um deles estava diferente do normal. Era uma espécie de punhal em miniatura. Alissa achava que ele até lembrava uma versão alongada do símbolo da Psicologia - graduação esta que ela deveria estar cursando -, mas o punhal era bem adornado e tinha uma empunhadura. Naquele momento, o objeto vibrava tanto que sua imagem estava difusa e ele produzia um som oco ao se debater na madeira da prateleira. Alissa gelou. Não era comum, nunca, os objetos agirem por conta própria.
"Patt!", gritou, sem cerimônia. O garoto estava dormindo e deu um pulo com o grito.
"O que foi?".
"Esse punhal, para que ele serve?".
Patt se levantou e, no momento que olhou para o punhal, arregalou os olhos.
"É um dos artefatos de Hector", respondeu. "Funciona como um alarme".
"E o que isso significa, homem?".
Os dois se olharam, em expectativa.
"Significa que, depois de treze anos, alguém entrou no gabinete de Ernesto Conti".

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