07 - Um caminho válido
- jeffpavanin

- 23 de dez. de 2025
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Quando Hista terminou seu relato, a primeira coisa que eu fiz foi encostar na cadeira. Só aí eu percebi que fiquei na ponta do assento o tempo todo, ansioso pra saber tudo. Eu ainda estava ansioso para saber mais, mas o que eu ouvi bastou pra me deixar absorto. Ernesto Conti havia fundado uma sociedade secreta que buscava por objetos mágicos. Essas não foram as expressões que ela usou, mas foi como eu entendi. A Universalis era um grupo formado por treze pessoas, aquelas listadas no documento que eu encontrei no gabinete, fundado há quase vinte anos. Hector também fazia parte do grupo, assim como a mulher perolada que olhava para mim agora, dentro daquele espelho, com olhos assustados. Era esse o conhecimento que meu avô tanto queria me passar? A história que eu ouvi ainda não explicava os diários rasurados, nem o perigo iminente sobre o qual ele me alertara. Voltei a me inclinar para a frente e olhei novamente para Hista. Eu ainda tinha tantas dúvidas.
"Certo. Então a Universalis buscava esses objetos e os guardava aqui", recapitulei. Hista assentiu. "Através da ajuda desse grupo, meu avô conseguiu reunir cerca de cinquenta desses objetos, todos armazenados nesses armários", eu indiquei as paredes ao redor.
Mais uma vez, Hista assentiu.
"Eu não sei exatamente como Ernesto fazia, mas ele tinha habilidades que o ajudaram nessa busca, assim como todos os outros", afirmou Hista. "Seu avô fundou a Universalis naquela época, mas já trabalhava nesse ramo há muito mais tempo, talvez desde jovem. Só para reunir todos os membros ele deve ter demorado quase o dobro disso".
Mais dúvidas pipocavam na minha cabeça. Saber de parte da verdade estava me deixando ainda mais confuso e ansioso. Aquilo tudo, pelo jeito, era o trabalho da vida de Ernesto Conti. A Hélicon tinha sido apenas uma parte disso.
"E você está com ele desde o início?", lancei uma das dúvidas para ela.
"Não. Quando seu avô veio até mim, o grupo já estava quase todo formado. Na verdade eu não tive muita serventia para a Universalis".
Estranhei o comentário. Hista tinha me dito que o espelho no qual ela morava (eu passei a pensar nele como uma morada durante aquela conversa) também era um dos objetos que meu avô encontrou. Ela não entrou em detalhes, mas o espelho era um draemyr, termo que ela tinha usado pouco antes na conversa, e, aparentemente, havia mais de um. Outro deles estava na biblioteca da minha casa. Eu me senti um pouco bobo ao pensar que um dos artefatos esteve bem no meu nariz durante toda a minha vida e eu nunca tinha percebido. Lembrava do espelho apenas como um objeto decorativo e a mansão reunia muitas decorações. E como ela não teve serventia para o grupo? Se não servia para nada, por qual motivo meu avô a mantinha no gabinete?
Eu respirei fundo e continuei com o interrogatório.
"Se você está presa a esse… draemyr… o que meu avô queria com você?".
Hista lançou mais um de seus olhares para mim. Ela parecia receosa.
"Anton, seu avô manteve muitos segredos de todo mundo, inclusive de você e da sua família. Algumas coisas podem soar incomuns demais, se eu te contar. Nem todo mundo está preparado para saber sobre tudo o que ele descobriu nesses anos de trabalho. Reunir os treze membros da Universalis exigiu muito dele e eu percebi isso quando recrutou os últimos. A busca pelos artefatos também. Mesmo eu, que já sabia de muito, não sabia de tudo. Agora, conhecendo o destino dele e provavelmente o dos outros, me entristece demais compreender a falta que ele vai fazer".
Aquilo não respondia a minha pergunta, mas eu não insisti. Ela ainda estava visivelmente abalada pela perda. Enquanto me contava sobre o grupo e os artefatos, não pude deixar de notar que a voz da mulher se embargava pelas emoções. Em certos momentos achei que ela iria chorar. Hista tinha dito que viveu muitos anos e, por mais que eu ainda não soubesse se ela era humana ou não, sentia emoções como uma. Ela me disse que poucas coisas poderiam abalá-la, mas o luto certamente era difícil para todos os entes. Contudo, minhas dúvidas persistiam. De onde veio Histalamar? O que ela era, de fato? Qual foi o interesse do meu avô nesse ser etéreo? Como ela poderia auxiliar na busca pelos artefatos? O que são os artefatos? Eu anotava todas as perguntas mentalmente.
Antes que eu pudesse lançar outra pergunta, a mulher continuou:
"Apesar da minha dificuldade em aceitar os fatos atuais, talvez seja bom você saber de mais algumas coisas, afinal, você é o neto dele e único herdeiro. Tudo o que está aqui agora é seu, inclusive esse draemyr".
Hista apontou para o próprio espelho e a verdade daquilo me abalou mais uma vez. Eu era o único dono de uma coleção de objetos estranhos, dispostos ali dentro. Quase cinquenta itens mágicos. Para mim, isso soava muito mais significativo do que ter herdado a grande e hipotética fortuna da família Conti. Sempre tivemos dinheiro, a mim nunca faltou nada e eu sempre usei somente o que me era necessário. Eu usaria a fortuna da melhor maneira que pudesse, mas artefatos mágicos? O que fazer com eles? Olhei mais uma vez para o gabinete ao meu redor, para as inúmeras gavetas e armários que continham tudo o que a Universalis reuniu nos seus anos de atividade. Hista percebeu meu comportamento e continuou seu discurso.
"Você vai descobrir que esse gabinete guarda muito mais que apenas os artefatos que seu avô e os outros encontraram. A Universalis também realizava estudos, pesquisas e viagens para outros lugares. Anton, você quer mesmo saber de tudo?".
Voltei minha atenção para ela.
"Sim", respondi. "Eu preciso saber".
"Certo. A Universalis tem como propósito principal… ou tinha… a busca pelos artefatos. Isso você já sabe. Eu não sei como seu avô descobriu o primeiro artefato ou como ele desenvolveu seu método de busca, isso ele não me contou. Contudo, eu sei que durante os anos em que ele desenvolvia a ideia sobre esse grupo, ele conheceu Hector. Ambos lecionaram aqui na Universidade Hélicon e assim se conheceram. Se tornaram melhores amigos. Ele não media esforços em demonstrar isso sempre que podia. Se tem uma pessoa que sabe o bastante sobre os artefatos, talvez com conhecimento inigualável ao do seu avô, é Hector Moretti. Infelizmente, pelo que você me contou, ele também não está mais neste plano".
De novo aquela nomenclatura. Não era comum as pessoas se referirem à morte como uma mudança de plano. Ao menos na minha família nunca utilizaram esse termo para falar da morte de meu avô. Mas ele mesmo disse isso em sua carta. Minha vida neste plano chegou ao fim.
"O que você quer dizer com este plano?".
Hista abriu um pequeno sorriso.
"Tem a ver com o que eu estou prestes a te revelar. Seu avô lecionava Filosofia e História, mas era um estudioso de diversas áreas do conhecimento. Estudou Cosmologia junto de Hector, por conta própria, e era fascinado pela teoria dos planos. Há teóricos que dizem que nossa existência pode ser explicada e dividida em diversos planos, como o físico, o mental e o astral. Seu avô decerto acreditava que não faria mais parte do plano físico, no qual estamos, quando escreveu aquela carta para você. Nos termos deles, isso quer dizer a morte. Eu não sou a melhor pessoa para te informar sobre isso. Você deve encontrar livros sobre a temática nas prateleiras, além de escritos de seu avô em outros diários. O que importa é que, a partir do interesse dos dois nessas teorias, com a ajuda dos artefatos que já tinham, juntos eles fizeram uma descoberta que nada tem a ver com os planos esotéricos da existência, mas que mudou os rumos de seus estudos e culminou na criação definitiva da Universalis".
Eu ouvia tudo com atenção. A revelação que ela prometia ainda não tinha vindo. A expectativa devia ser visível no meu rosto e, por um breve momento, achei que Hista se divertia um pouco com isso.
"Anton, seu avô descobriu que existem outros mundos além deste".
Na hora, a realidade do que ela falou não surtiu o efeito esperado em mim. Permaneci olhando para o espelho, expressando não surpresa, mas curiosidade. É de conhecimento geral que a ciência provou, há algum tempo, a existência de outros planetas no universo. Nós vivemos em um sistema com outros planetas, apesar de não habitáveis. Anos antes, astrônomos suíços haviam descoberto, inclusive, o primeiro planeta a orbitar uma estrela diferente do nosso sol, em outra parte do universo conhecido. Eu tinha estudado isso com meus tutores na mansão. Não era uma novidade. Foi quando Hista continuou sua história que eu entendi as implicações da descoberta que meu avô tinha feito.
"Outros mundos, Anton. Outras realidades, outras dimensões, planos ou o nome que você preferir dar. Foi um dos objetos que abriu essa possibilidade para eles. Uma orbe prateada. Alguns membros fizeram uma viagem para a Índia só para buscar essa orbe. Com ela descobriram que podiam visitar esses lugares".
Objetos que abrem janelas para outros mundos? Quantos desses deveriam estar armazenados ali? Eu custaria acreditar nessa realidade se não tivesse ouvindo isso da boca de uma mulher presa em um espelho, ali, na minha frente. O extraordinário estava se abrindo diante de mim. Meu avô tinha idealizado tudo isso. Agora, me pergunto se ele teria morrido por causa disso. Algumas peças agora começavam a se encaixar no quebra-cabeças de enigmas que ele tinha deixado para mim. Se existem objetos de poder escondidos na Hélicon e alguns deles possibilitam viagens para lugares nunca antes visitados, esse conhecimento certamente seria muito valioso. Muitos fariam de tudo para pôr as mãos nesses objetos. Muitos matariam por eles. Senti um aperto no peito ao pensar nessas coisas. O perigo iminente que meu avô descreveu na carta começou a fazer sentido. Certamente tinha a ver com isso. Alguém estava atrás desses objetos e eu era o único que podia entrar no gabinete.
Ter consciência disso foi como um despertar.
"Quem mais sabe sobre isso?", perguntei à Hista. Era minha única preocupação.
Ela hesitou.
"Além da Universalis, ninguém nunca soube. Mas o que aconteceu durante esses treze anos? Eu sinceramente não sei te responder com certeza, Anton. Meu sono involuntário provavelmente foi induzido, eu não consigo imaginar perder minha consciência por treze anos, levando em consideração a minha natureza".
"O que você quer dizer com isso?".
Hista suspirou mais uma vez. Não acho que ela se sentia à vontade para falar de si naquele momento, mas eu precisava tirar todas as minhas dúvidas. Eu havia acabado de conhecer Histalamar, ela só me vira uma única vez quando pequeno, nós não tínhamos intimidade alguma. Talvez seu elo emocional com meu avô pudesse me ajudar.
"Eu vim de um desses mundos, Anton. Seu avô me encontrou desta forma, já vivendo neste espelho. Eu não posso te contar tudo, mas minha natureza é essa há muito tempo, um fluxo de consciência preso em um artefato arcano. Com o tempo eu posso te contar mais, mas a realidade atual está me deixando nervosa. Perdi esses anos de memória e não sei o que aconteceu com os meus amigos da Universalis. Você entende?".
Eu entendia. Se tivessem me colocado para dormir e feito eu perder treze anos da minha vida, também acordaria desorientado. Hista tinha perdido seus melhores amigos e não sabia como. Eu não podia ajudar em nada, só fazia perguntas e mais perguntas. No que diz respeito ao destino da Universalis, ninguém sabia de nada. Meu avô me deixou uma herança e não teve tempo de dizer o que eu deveria fazer com ela. Objetos de inestimável valor, diários que eu não conseguia ler. Não deixe que ninguém tenha acesso a eles. Ninguém. São para seus olhos e seus olhos apenas. Eu lembrava da carta a todo momento. Eu deveria cuidar para que ninguém chegasse perto deste lugar. Olhei mais uma vez para tudo ao meu redor, os livros, os armários, os móveis, o jardim interno, os quadros… dei um novo significado para o gabinete de Ernesto Conti.
O gabinete de Anton Conti.
"Hista, quando eu sair desse cômodo, você vai voltar a dormir?".
Ela balançou a cabeça.
"Não. Eu não preciso de sono, não durmo. O que deixa tudo ainda mais misterioso. Quando você voltar, vai encontrar tudo como está. Apesar dessa situação, Anton, eu fico feliz que o seu avô tenha deixado tudo aos seus cuidados. Você será um bom guardião."
Eu não tinha tanta certeza.
Quando Anton deixou o gabinete no final daquela tarde, Alissa viu. Ela estava encostada na parede do corredor, à certa distância da porta do gabinete, fingindo interesse em suas próprias unhas. Patt não estava à vista, tinha ficado no dormitório para ver se o punhal de Hector parava de vibrar. Ela estava irritada. Com o Sr. Moretti desaparecido e após ter participado de seu primeiro roubo, a abertura do gabinete era algo novo para se preocupar. Eles não previram que isso pudesse acontecer. Ninguém sabia da chave e ninguém entrava lá há treze anos. Alissa sentia como se uma tumba tivesse se aberto após milênios imersa em mistério. Se soubessem disso antes, talvez o roubo pudesse ter sido evitado. Ernesto Conti era o guardião dos artefatos quando a Universalis ainda estava em atividade e provavelmente aquele cômodo guardava algo que pudesse ajudá-los a encontrar o Sr. Moretti. Ela tentou manter a calma quando viu o garoto sair por aquela porta, vestido com o uniforme da Hélicon, sem nada nas mãos.
Um estudante.
Um mero estudante tinha a chave do gabinete. Não um professor, não alguém misterioso, mas um jovem aluno. Quem é esse pirralho?, ela pensou. Provavelmente não era muito mais velha do que ele, mas ver um estudante sair por aquela porta deixou Alissa mais irritada do que intrigada. Era como se ele tivesse violado um local sagrado. Ele não sabia o perigo que corria. Não sabia que naquele exato momento outras pessoas estavam dispostas a pagar o que fosse pra ter a visão que ela tinha. Provavelmente ele não sabia nem o que aquelas gavetas guardavam. Ela tinha que avisar Patt. Saiu batendo pernas pelos corredores e voltou ao dormitório, onde o namorado a aguardava.
"Parou de vibrar agora", disse Patt, com o punhal na mão.
Ela se jogou na cama. O cubo prateado ainda estava sobre a mesa.
"Você não vai acreditar", começou. Não esperou Patt fazer perguntas e nem lançou outro olhar para o punhal. "É um estudante! Um garoto saiu do gabinete como se saísse de uma brinquedoteca, Patt! Quem é esse garoto? Onde ele conseguiu a chave?".
Patt pensou. Hector sempre dizia que a chave para o gabinete tinha se perdido ou sido enterrada junto de Ernesto Conti. Nem o professor, que convivera com o velho desde a fundação da Universalis, sabia onde estava a chave. Hector sempre foi evasivo nas tentativas de Patt em descobrir mais sobre o guardião dos artefatos. Não se sentia muito confortável em falar sobre Ernesto Conti ou sobre a relação que mantinham, então Patt não insistia. Depois do desaparecimento do professor, Patt teve que continuar o trabalho às cegas. Não sabia mais o que fazer. A abertura do gabinete era algo novo nessa equação, algo inédito. Era um caminho a ser seguido, sendo seu desbravador um garoto ou não. Largou o punhal na mesa ao lado do cubo e se dirigiu à Alissa.
"Não sei, deve ser um filho ou neto. Hector nunca me falou nada sobre a família do guardião, ele também vivia nas sombras em relação à isso, Alissa".
A garota mudou sua postura na cama, se sentando. Seus cabelos ficaram um pouco bagunçados devido ao movimento e Patt os ajeitou. Ela não reclamou.
"Se esse garoto tem acesso aos artefatos, a um draemyr, nós não vamos mais precisar do cubo".
"Ma belle, nós não sabemos usar os draemyr. Você provou ser peça necessária para o trabalho quando mostrou a Hector que sabia pra que eles serviam, mas nós nunca aprendemos a usá-los. O cubo e o espelho não servem pra nada se nós não soubermos como ativá-los."
"Eu posso estudar, sentir, aprender como ativar o cubo, mas levaria tempo. Já conhecemos o draemyr, pode ser um artefato muito mais fácil de usar. Seria um caminho muito mais rápido até Hector, Patt. Não dá pra negar isso".
E era verdade. Se pudessem ativar o draemyr que Ernesto Conti mantinha em seu gabinete, poderiam usá-lo para procurar pelo acadêmico. Um caminho válido. No ano anterior, quando Alissa mostrou para o professor que sabia sobre a funcionalidade dos estranhos espelhos, eles tinham acesso ao artefato. Quando Hector desapareceu, deixou para trás todos os seus pertences, desde roupas a objetos pessoais de importância. Não levara nada. A única coisa que desapareceu junto de seu dono, foi o draemyr. Pelo que sabiam, a Universalis tinha acesso a dois desses artefatos, um deles sumiu com Hector e o outro permaneceu trancado no gabinete desde a morte do guardião original. Os espelhos eram janelas para outros lugares, Alissa soube. Só precisava aprender a usá-los.
"Nós só temos um problema, ma belle", alertou Patt. "Por onde começar a procurar?".
"Uma coisa de cada vez. Primeiro precisamos falar com o garoto."
Patt assentiu. Alissa estava certa.
Precisavam do garoto.

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