Chevette
- jeffpavanin

- 13 de out. de 2013
- 7 min de leitura
Aviso: Contém linguagem adulta. Não recomendado para menores.

Ele estacionou o chevette na porta da locadora. Àquela hora a rua se encontrava muito vazia, não soube dizer se era devido ao clima chuvoso que a população da cidadezinha resolveu se enclausurar, mas libertou-se dessa dúvida ao entrar no recinto. Não olhou para a fila de prateleiras que dispunham todas as VHS a serem locadas porque já estava saturado de percorrer aqueles corredores dia após dia. A Locadora Perkins era quase como sua segunda casa. Apesar de não viver enfurnado ali como Brian, o atendente, via a cara do lugar por tempo suficiente durante um dia para considerá-lo já familiar. Colocou a sacola recheada de devoluções em cima da bancada.
– Já era hora – lançou Brian. – Esses filmes estão pra ser devolvidos há séculos. Era a puta do 320 não era? Ela adora esses thrillers.
– Era. – respondeu. – Ela e aquela outra estavam chupando o pau de um cara quando eu entrei pra pegar a porra da sacola, acredita?
– Acredito – e lançou um olhar reprovador pro colega.
Brian era quase um puritano. Vivia com aqueles óculos de intelectual, vestia-se como um cara descolado da Cocker Street, apesar de não ser descolado como os de lá. E nesse caso descolado poderia significar drogado. Falava devagar e soava inteligente. Agora brigava com o teclado daquela máquina, computador, que havia chegado à locadora não fazia nem uma semana. A máquina entoava bips repetidos a cada vez que ele digitava alguma coisa. Perdeu a paciência quando o negócio não conseguiu processar o que ele queria.
– Não dá pra entender essa sociedade, James – começou. O outro o olhava com certo interesse. – Criam esses supercomputadores para facilitar a vida da gente, mas as porcarias só dificultam o serviço. Eu já poderia ter dado baixa nesses daqui a mão mesmo, na ficha do cliente, mas não, Sra. Perkins insiste em computadorizar tudo. Vai entender.
James deu de ombros. Arregaçou as mangas compridas e deu a volta no balcão onde estava Brian. Nivelou seu olhar com o monitor daquela máquina e frisou o cenho. Que porra era aquela? Ele também não conseguiu entender.
– Que merda é essa, Brian. – Não era uma pergunta. – Por que essa luz está piscando?
– Isso quer dizer que a máquina está ligada, besta.
Brian deu um tapa de leve na testa de James. Não fazia nem um ano que se conheciam, mas tinham se tornado bons amigos por causa do emprego em comum. Ainda que Brian fosse o atendente e James o entregador, passavam a maior parte do dia cuidando juntos da locadora. A senhora Perkins já era velha, mas tinha dinheiro para investir em negócios. Gostava de apreciar a vida boa em casa, sentada de frente ao televisor, enquanto pagava os empregados que trabalhavam para ela. Todos os dias, inclusive, James levava a janta da velha depois que saía do trabalho e Brian a visitava aos domingos.
– Eu quero fumar. Que horas são? – James consultou o relógio de pulso. – Ainda não é hora de ir embora, mas eu quero fumar. Vem comigo?
Brian olhou rapidamente para a porta a fim de ver se clientes em potencial passavam, mas a rua estava deserta. Foi então trancar a porta dianteira e virar a plaquinha com o lado que dizia “Fechado” para fora antes de sair com James pela porta dos fundos. Ali não tinha saída para a rua, mas a porta dava para uma pequena área aberta em comum com outros dois estabelecimentos daquele bloco da cidade, que hoje estavam fechados. Brian ajeitou os óculos e sentou-se em um banco quebrado de cimento que a velha da outra loja tinha depositado ali como lixo. James encostou-se na parede logo à frente dele. Começaram a compartilhar um cigarro em silêncio.
– Era grande? – perguntou Brian.
– O que?
– O pau do cara.
James pensou. Não havia reparado muito no pau de ninguém, só quis pegar a sacola com as devoluções e sair logo daquele covil. Porém, tinha sim lançado um olhar pro homem na ocasião, porque queria ver quem era o babaca que estava dando dinheiro para aquela mulher. Passou o cigarro para Brian.
– Não reparei. É tudo muito sujo lá, cara. Nojento. Por que a pergunta?
– Só fiquei curioso. – Tragou o cigarro e passou para James e ficou em silêncio por alguns minutos, refletindo. – Não sei como alguém consegue viver disso, meu. Aquela mulher é um caroço. Feia pra burro. Ganha dinheiro trepando com os coroas mais malas da cidade. Você tá certo, é realmente muito nojento.
– Ah, cara, ela pode trepar com quem ela quiser. A vida é dela e ela faz o que ela quiser.
– Isso é verdade. Mas mesmo assim.
Ambos tragaram mais um bocado. Quando o cigarro estava quase acabando, James acendeu um segundo na bunda do primeiro. Aquele momento era o melhor do dia. Não, pensando bem, só perdia pra hora que chegava em casa e tirava a roupa suja. Era o segundo melhor momento do dia. Ele e Brian fumando, batendo papo, jogando conversa fora sem se preocupar com mais nada. O que mais ele queria?
– Você fumava antes?
– Antes do que?
– Antes disso aqui – e fez um gesto que englobou a situação.
– Ah. Na verdade, não. Peguei o hábito depois que você chegou fedendo a cigarro.
Ambos riram. James vestia uma camisa escura de manga comprida; tinha arregaçado as mangas antes, mas agora voltou a tapar os antebraços com o tecido porque o vento gelado batia sem dó. A chuva ainda não caíra. Tragou mais um pouco da nicotina e tornou a passar o cigarro pra Brian, que estranhou o olhar que o amigo sustentava.
– O que você tá olhando? – perguntou ele, rindo.
– Você é tão engraçadinho, Brian.
– Cala a boca.
– Não, é verdade. Esse seu óculos é bem maneiro. Seu cabelo curtinho assim fica legal. Lembra no começo quando dava pra torcer os dedos nele? Era irado também.
– Você tá tirando onda com a minha cara – reclamou, ainda rindo.
– Não, é sério. Você é gente boa. Acho que eu nunca te falei isso.
Brian riu, mas a risada agora era como um misto de graça com timidez. James nunca falava assim dele. Na verdade, ninguém nunca falava dessa forma sobre ele. Caras como James, do tipo badboy, não trabalhavam em uma simples locadora no centro da cidade. Viviam com aquelas pessoas em subúrbios entulhados, metido em tretas e correndo da polícia. James parecia ser diferente, mas ainda assim era estranho vê-lo babar ovo.
– Obrigado – respondeu encabulado. – Você também é bacana. Seu Chevette é fera.
E ambos estavam rindo, mas não ousavam trocar olhares agora. Seria embaraçoso demais. Brian passou o cigarro mais uma vez e deixou que o outro acabasse com a nicotina antes de jogá-lo fora. Ele se levantou do banco em que estava sentado, num impulso, e postou-se na parede, encostado bem ao lado de onde estava James, que pisou no filtro apagado. O relógio no pulso de Brian marcava a hora de ir embora, fato esse que ele verbalizou.
– Finalmente é hora de ir embora.
James não demonstrou nenhuma intenção de sair de onde estava.
– Eu não tenho que levar a janta da Sra. Perkins hoje, Brian. Se quiser posso te dar uma carona pra sua casa. Você ainda mora na Mandrake, não é?
– Moro sim. Não precisa se incomodar, cara. Dá pra ir a pé.
– Eu insisto. Cala a boca em vamos logo? Quero ir embora.
E Brian assentiu sem reclamar. Passou a tranca na porta dos fundos quando ambos entraram e pôs-se a repetir o procedimento em todas as janelas. Os dois pegaram os pertences pessoais da bancada da locadora antes de sair; James apagou as luzes. A última porta a ser trancada foi a da frente do estabelecimento. A plaquinha permaneceu informando que a locadora se encontrava “Fechada”, o que a falta de iluminação agora denunciava. A rua continuava deserta e os postes começavam a ser ligados. Quando James deu a partida no carango, o sol já ia se pondo.
Nenhuma alma ficou visível até o final daquela rua, mas quando entraram na avenida principal da cidade, algumas pessoas puderam ser vistas. A maioria era de comerciantes, que também fechavam seus estabelecimentos para, então, irem embora como os dois agora faziam. Descanso era o que todos queriam. Era sexta-feira; no sábado eles só iriam trabalhar até o meio-dia. A tarde seguinte só reservava um bom cochilo e frio. Brian ficou calado durante a viagem, mas parecia aproveitar alguma música que rolava em sua cabeça, pois cantarolava algumas palavras. James, por sua vez, não disse nada, mas mantinha o esboço de um sorriso no rosto.
Ao chegarem à Rua Mandrake, James estacionou o Chevette na frente da casa do amigo, um sobrado antigo que servia como pensão. Brian alugou o apartamento no segundo andar, no de baixo morava uma velha rabugenta que chamavam de bruxa má do oeste.
– Valeu pela carona, James.
E deu um abraço no amigo, que o retribuiu. Porém, nenhum dos dois quis se desvencilhar dos braços um do outro. Nenhum deles sentia aquilo há tanto tempo. Um abraço sincero, companheiro, longo. Zoavam um ao outro, mas sempre com respeito. As palavras que James havia dito antes agora estavam ricocheteando no crânio de Brian como se fossem as únicas coisas que importavam no momento. Ele não se importou quando James o beijou. Também retribuiu o beijo, como James antes havia feito com o abraço. Permaneceram assim durante alguns minutos antes de se separarem.
Se parassem pra pensar, aquilo soaria engraçado. Brian não tinha ninguém naquela vida, assim como James. Ambos moravam sozinhos, com famílias distantes ou já mortas, histórias de vida parecidas, mas ainda não sabiam. Fisicamente eram muito diferentes. Um moreno, outro loiro. Um com pose de intelectual, outro de badboy. Brian era mais baixo que James. Em tudo eram diferentes, mas isso era bom. Eles se entendiam. O engraçado era que eles compartilhavam o mesmo emprego, o mesmo salário, a mesma cidade, os mesmos dias monótonos. Tinham somente a si mesmos e a Sra. Perkins. Agora trocaram os olhares antes evitados.
– Isso é constrangedor – lançou Brian.
– Verdade. Mas eu gostei.
– Eu também – e corou. – Bom, te vejo amanhã?
– Como se tivéssemos escolha – riu James. – É claro, besta.
– Até amanhã, bobão. – Brian saiu e fechou a porta do Chevette.
James esperou que ele entrasse em casa antes de partir.



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